O Paradoxo do WhatsApp



Cheguei a casa naquele estado vegetativo em que uma pessoa já não quer tomar decisões. Se me perguntassem se queria jantar massa ou arroz, era bem capaz de responder para redigirem uma ata e que amanhã logo se via.

Ó pá, a segunda-feira tem isto. A gente sai de casa de manhã ainda com alguma ilusão e chega à noite contente por ainda saber onde deixou as chaves.

Tirei os sapatos, calcei os chinelos e fui direito à cozinha. Abri o frigorífico, fiquei a olhar para dentro e o frigorífico ficou a olhar para mim. Nenhum dos dois tinha grandes ideias.

Aqueci umas sobras, sentei-me à mesa e peguei no telemóvel.

Tinha 87 mensagens por ler no WhatsApp.

Família ❤️

Carago.

O coração ainda me deu um salto, porque 87 mensagens num grupo de família, numa segunda-feira, só podem querer dizer duas coisas: ou morreu alguém, ou alguém se lembrou de marcar um convívio de família.

O problema é que, na minha família, marcar um convívio não significa propriamente marcar um convívio. Significa trocar oitenta mensagens, discutir quem leva o arroz e chegar ao fim sem ninguém saber ao certo o dia, a hora ou onde é.

Abri.

Ninguém tinha morrido.

Era o convívio.

A minha tia tinha começado a hostilidade às sete e doze da manhã com uma imagem de rosas vermelhas, uma chávena de café a fumegar e umas letras douradas a dizer:

“BOM DIA FAMÍLIA. QUE DEUS ABENÇOE A NOSSA SEMANA.”

Logo a seguir vieram os “amém”, os “bom dia”, os corações e um gato animado a mandar beijinhos.

Ó pá, eu às sete e um quarto da manhã ainda não sei bem quem sou. Aquele pessoal já está a distribuir bênçãos.

Mais abaixo, um primo tinha enviado um vídeo de onze minutos sobre colesterol.

Onze minutos.

Tenho família que não me telefona há seis meses, mas acompanha o estado das minhas artérias com uma atenção comovente.

Depois apareceu a pergunta que havia de ocupar o resto do dia:

“Então domingo onde é?”

Ninguém respondeu.

Mas toda a gente falou.

“Eu vou.”

“Levo arroz.”

“Arroz já há.”

“Quem disse?”

“Não sei.”

“Então não faças.”

“Eu faço na mesma.”

E outra vez:

“Mas onde é?”

Silêncio.

Duas horas depois, alguém escreveu apenas:

“Pois.”

Fiquei a olhar para aquilo.

Há pessoas na minha família capazes de entrar numa conversa, escrever “pois” e sair deixando mais dúvidas do que quando chegaram.

Continuei a descer. Fotografias de comida, uma notícia velha, um cão que não sei de quem é e outra mensagem do primo do colesterol:

“Viram?”

Ninguém tinha visto.

Eu também não.

Tinha passado o dia inteiro na Moura entre cafés, contas, encomendas e creme. Cheguei a casa convencido de que tinha acabado o trabalho e descobri que ainda me faltava outro turno.

O da família.

Foi nessa altura que um primo meu, que também estava no grupo e aparentemente já tinha desistido de perceber o que se passava, me escreveu em privado:

“Então? Sobrevives a isto?”

Ri-me e carreguei no botão do áudio.

— Ó pá, aquilo é um manicómio digital. Temos uma tia que manda rosas antes das sete da manhã, um primo que descobriu a medicina na Internet e quinze pessoas a organizar um convívio sem nenhuma saber onde é. Se eu desaparecer, fui assassinado por um GIF de bom dia.

Enviei.

Pousei o telemóvel.

E tive aquela sensação.

Aquela em que o corpo percebe a merda uns segundos antes da cabeça.

Peguei no telefone.

Olhei para cima.

Família ❤️

Fiquei quieto.

Tentei apagar o áudio, mas já tinha sido ouvido.

E então apareceu:

Tia Rosa está a escrever…

Parou.

Voltou.

Tia Rosa está a escrever…

Carago.

Aquela mulher não estava a escrever uma mensagem. Estava a preparar um comunicado à nação.

Durante uns segundos considerei mudar de cidade.

Valença chegava.

Finalmente apareceu:

“Eu mando flores porque vocês nunca dizem bom dia.”

Logo a seguir:

“O vídeo é de um médico.”

O primo do colesterol, claro.

E, no meio daquele incêndio, alguém perguntou:

“Então mas domingo onde é?”

Pousei a testa na mão.

Ó pá, família não se organiza.

A família acontece-nos.

Foi então que, no meio das mensagens, apareceu uma fotografia antiga.

A minha avó Amélia estava à porta da Pastelaria Moura, de avental, muito mais nova do que a mulher que guardo na memória. Tinha uma mão apoiada na ombreira e aquele ar de quem já sabia que o mundo dava trabalho, mas abria a porta na mesma.

Ampliei a fotografia.

O jantar foi arrefecendo à minha frente.

A avó nunca teve WhatsApp. Ainda bem.

Mas também não precisava.

Se eu demorasse quatro minutos a responder, para ela já me tinha acontecido alguma coisa.

E nunca me lembro de a ouvir dizer muitas vezes “tenho saudades”. Dizia antes:

— Ó menino, já comeste?

Não dizia “estou preocupada contigo”. Mandava-me levar um casaco.

Não dizia “gosto de ti”. Punha mais comida no prato.

Olhei outra vez para o grupo.

A tia das flores. O primo do colesterol. A pessoa do “pois”. E aquela gente toda que, após 87 mensagens, continuava sem saber onde era o convívio.

E ocorreu-me que, se calhar, estavam todos a fazer o mesmo que a avó fazia.

Só que agora com dados móveis.

Há pessoas que não sabem dizer “tenho saudades”, por isso mandam rosas às sete da manhã. Outras não perguntam “estás bem?”, mas enviam um vídeo sobre colesterol que ninguém pediu.

E eu também não sou muito melhor.

Abri o teclado e escrevi:

“Desculpem. Gosto muito de vocês.”

Li.

Apaguei.

Também não vamos perder a cabeça.

Escrevi antes:

“Eu levo as bolas de Berlim.”

Não passaram dez segundos.

“Quantas?”

Depois:

“Com creme?”

Respondi:

“Claro, carago.”

Pousei o telemóvel e voltei ao jantar, que entretanto ficou frio.

Olhei mais uma vez para a fotografia da avó.

Ó pá, talvez a família seja um bocado isto: as pessoas que nos chateiam o suficiente para que, quando ficam caladas tempo demais, sejamos nós os primeiros a perguntar se está tudo bem.

Mas também não lhes vou dizer isso.

Ainda começam a mandar mensagens emocionais.

E 87 já chegam para uma segunda-feira.

É o que é.



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