As Personagens

    

Gente da Moura

Cada história tem um lugar.
E cada lugar tem as suas pessoas.


A Padaria Moura

Mais do que uma padaria.

É o lugar onde o bairro acorda,
onde as conversas começam
e onde o Tó aprende que a vida
não se mede em pressas,
mas em fornadas.


O Tó

Homem comum.
Divorciado. Pai de uma filha.

Trabalha em contabilidade durante o dia.
Ajuda na Padaria Moura
nas horas em que a vida pede silêncio.

Não tem o carro dos seus sonhos.
Tem histórias.

E aprendeu uma coisa simples:

às vezes é melhor ter paz
do que ter razão.


Avó Amélia

Dona da Padaria Moura.
Conhece o bairro pelo nome
e pela fome.

Acredita que o pão resolve metade dos problemas
e que a outra metade
se resolve à mesa.

Não usa metáforas.

Mas diz verdades
que parecem filosofia.


Sr. Vasconcelos

Chefe do Tó no escritório de contabilidade.

Homem de fatos escuros, prazos curtos
e sobrancelha levantada
sempre que um número não bate certo.

Acredita que a vida devia funcionar
como uma folha de Excel bem organizada:
linhas direitas, contas certas
e poucos imprevistos.

Nunca percebeu muito bem
porque é que o Tó consegue rir
mesmo quando o balancete não fecha.

Lá no fundo,
suspeita que talvez haja nisso
um tipo de sabedoria
que não aparece nos relatórios.

Ivan

Padeiro.
Checo.

Veio ajudar a Avó Amélia
numa altura em que o forno já pedia mais mãos
do que vontade.

Ficou.

Fala um português com sotaque carregado,
como se cada palavra tivesse atravessado metade da Europa
antes de sair.

Mas no pão não há sotaque.
Há precisão.

Chega cedo.
Sempre cedo.
Antes do bairro acordar
e antes do Tó perceber que já está atrasado.

Mede a farinha sem pressa,
amassa com calma
e olha para a massa
como quem sabe que as coisas certas
precisam de tempo.

O Tó diz que o Ivan não fala muito,
mas também não é preciso.

Há pessoas que explicam a vida.
Outras mostram.

O Ivan mostra.

A Avó Amélia confia nele como se fosse da casa.
E isso, na Moura, não se dá com facilidade.

Uma vez disse, enquanto tirava o pão do forno:

— “Pão é como pessoas. Se força muito, estraga. Se espera tempo certo, fica bom.”

O Tó ficou a pensar nisso o resto do dia.
E, por acaso, até fechou o Excel mais cedo.

O Ivan não conta muito do passado.
Mas há um cuidado nos gestos
que não vem de quem sempre teve vida fácil.

Na Moura, ninguém lhe pediu histórias.

Deram-lhe um avental,
um lugar ao lado do forno
e tempo.

E o Ivan fez o resto.




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