As Personagens
Ivan
Padeiro.
Checo.
Veio ajudar a Avó Amélia
numa altura em que o forno já pedia mais mãos
do que vontade.
Ficou.
Fala um português com sotaque carregado,
como se cada palavra tivesse atravessado metade da Europa
antes de sair.
Mas no pão não há sotaque.
Há precisão.
Chega cedo.
Sempre cedo.
Antes do bairro acordar
e antes do Tó perceber que já está atrasado.
Mede a farinha sem pressa,
amassa com calma
e olha para a massa
como quem sabe que as coisas certas
precisam de tempo.
O Tó diz que o Ivan não fala muito,
mas também não é preciso.
Há pessoas que explicam a vida.
Outras mostram.
O Ivan mostra.
A Avó Amélia confia nele como se fosse da casa.
E isso, na Moura, não se dá com facilidade.
Uma vez disse, enquanto tirava o pão do forno:
— “Pão é como pessoas. Se força muito, estraga. Se espera tempo certo, fica bom.”
O Tó ficou a pensar nisso o resto do dia.
E, por acaso, até fechou o Excel mais cedo.
O Ivan não conta muito do passado.
Mas há um cuidado nos gestos
que não vem de quem sempre teve vida fácil.
Na Moura, ninguém lhe pediu histórias.
Deram-lhe um avental,
um lugar ao lado do forno
e tempo.
E o Ivan fez o resto.



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