Está cada vez mais difícil tocar no coração das pessoas
Está cada vez mais difícil tocar no coração das pessoas.
Aquilo agora parece condomínio fechado.
Porta blindada.
Vídeo-porteiro.
Câmara 360 graus.
E um segurança emocional a perguntar: “Tem marcação?”
Se alguém toca à campainha sentimental, aparece uma voz automática:
“De momento não nos encontramos disponíveis para sentir. Tente daqui a seis meses ou nunca.”
O Tó percebe.
Também já meteu fechadura tripla cá dentro.
Depois de umas quantas quedas, o homem aprende.
Aprende a mal, mas aprende.
para “vou ver no que dá…
mas com seguro multirriscos com cobertura contra danos morais”.
Não é que as pessoas não sintam.
Sentem é demais.
E como ninguém gosta de cair duas vezes no mesmo buraco, começam a andar com GPS emocional ligado:
“A recalcular.”
“A recalcular.”
“Daqui a 200 metros, evite compromisso.”
“Na próxima rotunda, siga em frente e finja que não sentiu nada
O Tó sabe.
Houve uma fase em que decidiu que ia ser prático.
Frio não. Só… eficiente.
Tipo micro-ondas.
Aquece rápido.
Não se envolve.
Dá aquele bip e acabou.
Há cansaços que não aparecem na cara.
Ficam acumulados como pó em cima do armário da cozinha.
Não se vê de longe.
Mas um dia passas o dedo…
e sais de lá a espirrar memórias de 2009.
Mágoas que não tiveram tempo de chorar.
Discussões resolvidas com um “pronto, tá bem” que quer dizer tudo menos “tá bem”.
Sonhos arquivados em “logo se vê”, aquela gaveta onde também mora o IRS e as promessas de ginásio.
E ele a dizer:
“É o que é.”
Frase bonita.
Resolve tanto como assoprar um incêndio.
Depois começa a fase perigosa.
Segunda, terça, quarta… tudo igual.
O trabalho corre.
O salário cai.
A vida anda.
Mas por dentro é tudo massa crua.
Não sabe a nada.
Nem sal, nem açúcar, nem drama. Só… nhé.
Quando nada importa muito, qualquer coisa serve.
E quando qualquer coisa serve… já foste.
O critério passa a ser confortável:
“O que é que me dá menos chatices?”
“O que é que não me complica?”
“O que é que não me obriga a explicar sentimentos com gráficos?”
Os outros passam a figurantes.
Aparecem, dizem “tás fixe?”,
ele responde “tô, e tu?”,
e está feito.
Tudo muito adulto.
Muito resolvido.
Muito vazio com Wi-Fi.
E aquela conversa moderna do “faz o que sentes”?
O Tó ouvia isso no open space e pensava:
Ó pá, sentir é giro.
Ficar é que dá trabalho.
Mudar de ideias todos os dias parece liberdade.
Às vezes é só cansaço com bom marketing e uma TED Talk pelo meio.
Evoluir, naquela altura, não foi mudar de emprego nem comprar sapatilhas brancas para parecer minimalista.
Foi atender o telefone quando não apetecia.
Foi pedir desculpa mesmo tendo meia razão, que é a pior metade.
Foi ficar numa conversa desconfortável sem fugir para a piada.
Porque o humor dele já lá estava.
Sempre.
“Estou mais cansado que a sola das minhas Havaianas.”
Riam-se.
Ele também.
Mas lá dentro havia qualquer coisa a pedir colo.
Baixinho.
Sem microfone.
O Tó percebeu uma coisa simples:
o gesto mais revolucionário hoje em dia não é declarar amor em três parágrafos bem formatados.
É não desaparecer.
Não é escancarar o coração tipo montra de Natal com luzes intermitentes.
É abrir uma fresta.
Deixar o vento entrar um bocadinho.
Deixar alguém sentar-se ao lado sem pedir relatório emocional em PDF.
Sentir continua a ser risco.
Claro que é.
Ele já tinha levado pancada suficiente para abrir consultório e passar faturas.
Mas virar estátua é pior.
A estátua não sofre.
Mas também não ri.
E ninguém abraça mármore.
E o Tó, funcionário cansado com crachá ao peito e senha de almoço às 13h12, percebeu uma coisa que não vinha nos manuais de recursos humanos:
Viver é deixar que alguma coisa ainda mexa cá dentro.
Mesmo que doa.
Mesmo que canse.
Mesmo que dê aquele friozinho no estômago que não é gastrite.
E quando dava por si a fechar demasiado, fazia o que sabia.
Encostava-se à varanda do apartamento.
Olhava a rua.
Respirava fundo.
E dizia para dentro:
“Ó pá… abre lá isso outra vez.
Que ainda há gente boa por aí.”
Depois encolhia os ombros.
Ia trabalhar.
E levava o coração sem porteiro.
É o que é.


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