A sede não melhora a água
A imaginação, quando tem sede, trabalha mais depressa e preenche os espaços vazios com aquilo que mais deseja encontrar.
Onde há silêncio, vemos atenção profunda.
Onde há acaso, vemos intenção do destino.
Lá no fundo, até desconfiamos. Existe quase sempre uma parte de nós , aquela que sabe fazer as contas e não se deixa enganar pelo IVA, que percebe a verdadeira medida das coisas. Mas o coração, quando está cansado, prefere acreditar.
Às vezes acreditar não é ingenuidade.
É apenas uma forma de tirar férias da lucidez.
Porque ver tudo com clareza também cansa.
mesmo quando a porta que encontram nunca foi casa.
Não porque seja amor, mas porque a solidão pesa mais do que a dúvida.
Há noites em que o silêncio dentro de nós se torna tão grande que qualquer presença parece suficiente. Mesmo aquelas que chegam apenas pela metade, como um café que vem frio.
A Avó Amélia dizia, enquanto passava o pano pelo balcão com a calma de quem já viu muitas histórias repetirem-se:
“Quem tem sede, Tó, bebe até água turva.”
Fiquei muitas vezes a pensar nisso.
A sede não melhora a água. Apenas nos faz beber com menos cuidado e menos perguntas. Quando aperta, não procuramos pureza. Procuramos alívio.No amor acontece o mesmo.
Um gesto mínimo cresce. Uma atenção breve parece cuidado. Não porque o gesto seja grande, mas porque o nosso vazio
Com o tempo aprendemos uma coisa difícil, daquelas que não vêm nos manuais: nem toda a água que mata a sede faz bem ao corpo.
mas deixam o coração ainda mais seco depois de passarem.
É o lugar onde o coração descansa.
Onde a sede termina.
E quando a sede termina, acontece uma coisa simples, quase banal:
Deixamos de aceitar qualquer água.


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