O Balcão do Tó


(Entre o Excel e a Farinha)


Se me procurares nas horas úteis, sou o António da contabilidade. Um homem de pastas de arquivo, NIFs e prazos de entrega que não admitem atrasos. No escritório,
a vida é uma equação que tem de bater certo ao cêntimo. É o meu sustento, o meu rigor e, muitas vezes, o meu cansaço.

Mas se me procurares quando o sol ainda não nasceu, ou quando o dia já se despediu, sou o Tó da Moura.

A Padaria Moura não é minha. É da minha avó Amélia. É o reino dela desde que me conheço, um lugar onde o tempo não se mede em trimestres fiscais, mas em fornadas.
Eu estou lá para ajudar. Para segurar o balcão quando as pernas dela falham.
Para garantir que o forno continua a dar pão a quem precisa de conforto.
O meu tempo divide-se assim: de um lado, a segurança dos números; do outro,
a verdade da massa que leveda.

Este blogue nasceu na fresta entre esses dois mundos.


É um caderno de notas de alguém que percebeu uma coisa simples: a vida não é apenas o que ganhamos ao fim do mês. É também o que guardamos no peito ao fim do dia.

Aqui escrevo sobre pequenas coisas que às vezes passam despercebidas. Sobre a teimosia de continuar quando as coisas não correm bem. Sobre pessoas diferentes que, sem se perceber muito como, acabam por se entender.

São histórias de balcão. De quem observa mais do que fala. De quem percebeu que a vida raramente cabe nas contas certas que fazemos durante o dia.

Não sou um padeiro a tempo inteiro, nem um contabilista de alma.
Sou apenas alguém que aprendeu que o segredo não está em escolher um mundo e abandonar o outro. Está em saber caminhar entre eles sem se perder.

Este é o meu balcão de desabafo.

Serve-te de um café, esquece o relógio e fica um pouco.



              
(António para o Fisco)

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