O Risco de Andar à Chuva

 



Há dores que nos encontram antes de sabermos sequer como lhes chamar. Chegam sem aviso, desestabilizam nossas certezas, destroem nossos planos estratégicos, afastam pessoas, interrompem sonhos e nos obrigam a encarar versões de nós mesmos que nunca pensamos em conhecer.
No início, qualquer nuvem mais escura que paire parece uma ameaça. Tememos voltar a perder. Tememos assinar novos contratos de confiança. Tememos começar tudo outra vez do zero. Depois de uma tempestade daquelas que arrancam telhas, até a chuva mais miudinha pode acordar memórias de inundações que ainda não esquecemos.
Mas o tempo não aceita subornos e ensina-nos algo de curioso. Nem sempre ficamos mais fortes porque deixámos de sentir medo ou porque comprámos um guarda-chuva. Muitas vezes, ficamos mais fortes simplesmente porque aprendemos que conseguimos continuar a caminhar, mesmo com o medo sentado no banco do pendura.
Depois de sobreviver ao que pensávamos que nos ia fechar as portas para sempre, começamos a olhar para algumas dificuldades de outra maneira. Não porque o prejuízo se torne insignificante, mas porque já conhecemos qualquer coisa em nós que antes desconhecíamos por completo: a nossa capacidade casmurra de permanecer. De recomeçar a obra. De juntar os cacos.
Há uma coragem que só aparece depois de termos sido obrigados a atravessar noites demasiado longas. Não é a coragem de quem faz discursos motivacionais, nem precisa de ostentar tudo aquilo que venceu. Às vezes, manifesta-se apenas na serenidade com que enfrentamos aquilo que antes nos faria fugir.
Ainda haverá dias difíceis. Ainda haverá perdas que doem, faturas imprevistas que assustam e momentos em que a força parece ter evaporado. Mas alguma coisa permanece cravada na estrutura. A memória de todas as vezes em que pensámos que não conseguiríamos pagar a dívida e, de uma maneira ou de outra, acabámos por pagá-la.
Por isso, chegar a um ponto em que já não temo a chuva não significa que me tenha tornado invulnerável ou à prova de água. Significa apenas compreender que não preciso de ter o controlo do céu nas mãos para confiar na minha capacidade de atravessar a tempestade.
Talvez a verdadeira força seja precisamente essa. Não ficar feito burro à espera de que a vida deixe de chover. Aprender que, mesmo com a roupa encharcada, ainda conseguimos dar mais um passo em frente.

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