O Inventário dos Espelhos
Há pessoas que entram na nossa vida como abrigo. Daquelas onde pousamos o cansaço à entrada, tiramos os sapatos da cabeça e fingimos, durante umas horas, que o mundo lá fora não existe. Outras entram como espelho. E foi aí que me espalhei ao comprido sem sequer escorregar em nada visível.
Durante anos achei que sofria pela ausência da São, como se me faltasse uma peça importante da engrenagem. Como aqueles parafusos minúsculos que sobram depois de montarmos um móvel e que nos deixam a olhar para a estante com desconfiança. Mas a verdade apareceu devagarinho, como as cartas das finanças: sem aviso e sempre numa altura péssima.
Eu não sentia falta dela.
Sentia falta da versão de mim que existia quando estava com ela.
Da calma estranha que me desmontava o cinismo. Da facilidade absurda de dizer coisas sem fazer primeiro uma reunião interna de quinze minutos para decidir se pareciam ridículas. Sentia falta daquela sensação rara de não precisar de representar personagem nenhuma. Nem o António funcional. Nem o António engraçado. Nem o António “está tudo controlado”, quando claramente já havia incêndios emocionais em três divisões diferentes.
Talvez seja isso que certos amores fazem. Não ficam para sempre, não deixam contrato assinado nem mobília comprada em conjunto, mas abrem portas interiores que estavam fechadas há anos. Portas onde guardámos versões nossas cheias de pó, sonhos arrumados em caixas mal etiquetadas e fragilidades escondidas atrás de pastas com nomes sérios para ninguém desconfiar.
E depois a pessoa vai embora.
As mensagens abrandam. Os silêncios aumentam. E sobra aquela pergunta que aparece sempre às três da manhã, precisamente quando uma pessoa queria apenas beber água e voltar a dormir:
“Eu amava mesmo aquela pessoa… ou amava aquilo que ela despertava em mim?”
Ainda hoje não tenho resposta absoluta. Acho que ninguém tem. Mas percebi uma coisa importante enquanto olhava para o espelho da casa de banho, naquele estado emocional entre “reflexão profunda” e “privação de sono”.
O antigo António não desapareceu.
Só foi sendo atualizado por pessoas que passaram pela vida dele e deixaram pequenas chaves perdidas nos bolsos do casaco. Chaves de partes dele próprio que nem sabia que existiam.
Agora já não procuro alguém para me esconder de mim. Isso dá demasiado trabalho logístico e emocional. Procuro alguém que consiga olhar comigo para este novo espelho sem medo de que ele se parta ao primeiro silêncio mais complicado.
E sinceramente?
Já não me parece pouco.



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