O Que Fica (Depois)
Durante muito tempo, ainda havia esse lugar onde voltavas, mesmo sem querer. Um pensamento que insistia, um hábito que se demorava mais do que devia. Era como se parte de ti continuasse ali, à espera de qualquer coisa que nunca chegava a tomar forma.
E depois, sem anúncio, algo mudou. Não foi um corte, nem uma decisão firme. Foi antes um cansaço suave, um desapego que não precisou de explicação. Começaste a ir menos vezes. E quando ias, já não ficavas. Como quem visita um lugar antigo e percebe, com uma estranheza tranquila, que já não lhe pertence.
Há uma surpresa silenciosa nesse momento em que deixas de precisar de um fecho. Durante tanto tempo acreditaste que tudo exigia sentido, uma última conversa, um entendimento que colocasse ordem no que doía. Mas a vida, às vezes, resolve-se sem tradução.
O que aconteceu foi simples, embora demore a reconhecer. O tempo passou. Os dias foram-se enchendo de outras coisas, de pequenos detalhes, de novas urgências. E aquilo que parecia imenso começou, discretamente, a perder espaço dentro de ti.
Não desapareceu. Mas encolheu. Tornou-se mais leve, mais distante, quase como uma memória que já não chama pelo teu nome. Está lá, mas não te prende. Existe, mas não exige.
E talvez seja isso que mais transforma. Não a compreensão total, nem a explicação perfeita, mas esse deixar de insistir. Esse permitir que o tempo faça, em silêncio, o trabalho que a tua vontade não conseguia terminar.
Há um momento em que já não há nada para segurar. Nem perguntas por fazer, nem respostas por alcançar. Apenas um espaço mais leve dentro de ti, onde antes havia ruído.
E nesse espaço, quase sem dares por isso, nasce uma certeza tranquila. Não precisa de palavras grandes. Basta essa sensação discreta, quase íntima, que chega sem alarde e fica.
Já passou.



Comentários
Enviar um comentário