O peso da Auŝencia


Há dias que chegam devagar.
Sem pressa. Sem aviso.

Instalam-se como uma luz morna ao fim da tarde.
Bonita à primeira vista…
mas com um cansaço escondido que só se sente depois.

E, ainda assim, difícil de aceitar.

Há ausências que não fazem ruído.

Não chegam com portas a bater,
nem com palavras que ferem.

Instalam-se aos poucos.
Como quem pede licença… e depois ficam.

É estranho como alguém pode estar presente
e, ainda assim, não estar.

Responde… mas não chega.
Fala… mas não toca.
Fica… mas não permanece.

E nós, numa tentativa quase inocente de salvar
o que parece estar a desaparecer, vamos ajustando.

Damos mais um pouco.
Depois mais outro.

Mais tempo.
Mais paciência.
Mais compreensão.

Mais de nós.

Até ao ponto em que já não sabemos bem onde acabamos
e onde começa o outro.

E talvez seja aqui que tudo se torna mais confuso.

Porque não há um momento exato em que se perde tudo.
Há pequenos desvios.
Pequenas cedências.
Pequenos silêncios que vamos aceitando.

E quando damos por isso…
já estamos longe de nós.

Mas amar não é isto.

Amar não é fechar os olhos ao que sentimos.
Não é fingir que não dói só para manter alguém por perto.
Não é transformar ausência em esperança,
nem silêncio em desculpa.

Há um lugar dentro de nós que não devia ser negociado.
Um lugar calmo.
Inteiro.
Onde a dignidade ainda respira.

E quando esse lugar começa a desaparecer…
já não é amor que está a crescer.

É ausência.

Dar nunca devia significar perder-se.

Porque no fim, a pergunta mais difícil não é:
porque é que o outro não ficou?

É outra.

Mais silenciosa.
Mais honesta.

Como é que eu me fui deixando ir…
enquanto tentava ficar?


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