O Perdão



Há casas onde continuamos a viver mesmo depois de sair.

Não são casas reais. Não tenho porta nem morada, mas fique cá dentro como se a chave tivesse. Às vezes parece sem aviso, no meio de um dia normal, quando tudo é aparentemente resolvido. Basta um silêncio maior, um gesto que se repete, ou uma memória que não pediu para voltar.
E lá estamos outra vez.

Dentro de um sítio onde já não devíamos estar.

Durante muito tempo descobri que o problema era não conseguir sair daquelas casas. Que ainda faltava dizer alguma coisa, fechar alguma porta, resolver um detalhe que tinha ficado pendente. Como se o passado fosse uma conta mal lançada que ainda precisava de acerto.

Mas não é isso.

A verdade é mais simples, e um bocadinho menos confortável.

Há coisas que não ficam por resolver.
Ficam por largar.

Percebi isso sem grande momento de revelação. Foi mais lento, como quase tudo o que interessa. Foi num dia normal, sem drama, sem discussão, sem nada que justificasse uma grande mudança. Só aquele leve cansaço de já ter passado muitas vezes pelo mesmo sítio dentro de mim.

E aí fez sentido.

Perdoar não é apagar essas casas.

Não é fingir que não existam, nem pintar as paredes de outra cor para ver se custa menos. Também não é voltar lá para confirmar se já não fiz.

É outra coisa.

É deixar de acender a luz.

Porque enquanto continuamos a entrar lá dentro para ver como está, aquilo continua vivo. Continue a ocupar espaço, continue a pedir atenção, continue a parecer mais importante do que é.

Perdoar é parar de visitar.

É perceber que não temos de pagar outra vez por uma coisa que já nos custou o suficiente.
E isso não acontece com ruído.

Não há um dia marcado, nem uma decisão solene, nem aquele momento claro em que dizemos “pronto, agora acabou”. É mais pequeno do que isso. Mais discreto.

É como poussar as chaves em cima da mesa… e não voltar a pegá-las.

No início estranhou-se.

O corpo ainda quer ir lá. Ainda tenta abrir a porta, ainda repete o caminho quase por hábito. Mas aos poucos isso passa. Sem esforço, sem luta, só deixa de acontecer.

E quando damos por isso, já não estamos lá dentro.

Estamos aqui.

Do nosso lado.

E é nesse instante que começa qualquer coisa que se pareça com paz.

Não porque tudo ficou resolvido.

Mas porque deixou de ser preciso resolver.

E isso… já chega.

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