Amar de Guarda Baixa

 


A humildade no amor não é fraqueza.
É um trabalho silencioso de contenção do ego.

Nós passamos o dia a construir versões fortes de nós.
Eu passo o dia a ser o António que resolve, que confere, que não falha.
Um homem que não pode hesitar porque há números à espera.
Há prazos. Há consequências.

E isso cola-se à pele.

Criamos uma espécie de armadura funcional.
Protege. Organiza. Dá-nos valor no mundo.

Mas tem um problema simples.
Não sabe sair quando chegamos a casa.

E ninguém consegue sentir amor através de aço.

A Avó Amélia nunca explicou isto com palavras bonitas.
Mas vivia como quem já sabia.
Quando alguém está de peito feito, não está disponível.
Está preparado para se defender.

E quando estamos assim… tudo parece ataque.

Um “o café está bom?” soa a crítica.
Um silêncio soa a julgamento.
Um olhar distraído parece distância.

Não porque o outro esteja a fazer isso.
Mas porque nós já estamos em guerra.

A maior barreira entre duas pessoas raramente é falta de amor.
É excesso de orgulho.

É aquela rigidez que não nos deixa dizer coisas simples.
Coisas pequenas.
Coisas verdadeiras.

Hoje estou com medo de falhar.
Hoje não sei se chego.
Hoje não me sinto suficiente.

No fundo da gaveta, onde ninguém mexe, não está raiva.
Está medo.

O medo de sermos vistos sem a versão editada.
Sem o António que aguenta tudo.
Sem o Tó que resolve com uma piada.

O medo de, se alguém vir isso… ficar menos.

Mas a verdade é outra.
É quase o contrário.

As pessoas não se sentem seguras com quem nunca falha.
Sentem-se seguras com quem não precisa de fingir que é invencível.

Na Moura, há uma coisa que se aprende sem ninguém ensinar.
Às vezes, depois de uma discussão, alguém paga o café em silêncio.

Não é sobre o café.
É sobre desistir de ganhar.

É dizer, sem dizer:
prefiro ficar do que ter razão.

A humildade no amor é isto.
É baixar o volume de nós para conseguir ouvir o outro.

É aceitar que nem tudo vai fechar certo.
Que há dias em que damos mais.
Outros em que só conseguimos estar.

E que isso também conta.

Amar de guarda baixa dói.
Porque ficamos expostos.

Mas é aí que o amor entra.

O resto…
é só uma relação bem organizada por fora
e vazia por dentro.

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