O Homem que trabalho em silêncio
O Tó costuma dizer que há pessoas que entram na Moura pela porta, mas há outras que parecem já fazer parte da casa antes mesmo de alguém reparar.
O Ivan é dessas.
Chegou há anos, vindo da República Checa, com uma mala pequena, poucas palavras e um respeito enorme pelo trabalho.
Um dia estava ali a amassar a massa e, desde então, parece que sempre esteve. Como se fosse um pilar que ninguém se lembra de ter construído, mas que segura todo o teto.
A avó Amélia chamava-lhe Ivan e ele respondia sempre da mesma maneira:
Sim, Dona Amélia.
Ficava resolvido.
O Ivan fala pouco. Diz frases curtas, às vezes metade em português e metade em silêncio, como se as palavras tivessem um custo de manutenção que ele prefere não pagar.
Já está.
Massa precisa descanso.
Hoje fica bom.
E pronto.
Não há cá adjetivos desnecessários nem floreados.
Se o Ivan fosse contabilista, os balanços dele cabiam todos num guardanapo de papel.
O Tó costuma dizer que, se a Avó Amélia é a cara da Moura, o Ivan são as mãos.
Porque há coisas que o Ivan faz sem ninguém ver.
Chega cedo, quando o Porto ainda está a decidir se acorda.
Acende o forno.
Amassa a massa devagar.
Limpa a bancada como se estivesse a arrumar o mundo por ordem alfabética.
Trabalha com a avó Amélia.
Foi ela que lhe ensinou o ponto certo da massa e o respeito pelo forno.
Sem pressa, dizia ela.
O Ivan nunca esqueceu.
Ele sabe que o calor e o tempo não aceitam subornos.
Não é homem de grandes histórias, mas quem o conhece percebe uma coisa simples:
há pessoas que falam sobre trabalho e há pessoas que fazem o trabalho acontecer.
O Ivan é dessas.
Não precisa de manual de instruções nem de reunião de planeamento.
Ele sente o calor do forno com as costas da mão e sabe se a tarde vai ser de glória ou de aperto.
E na Moura, quando a massa está certa e o forno está quente, ele diz sempre a mesma frase, com um pequeno aceno de cabeça:
Hoje fica bom.
Normalmente fica mesmo.
E o Tó, ao ver o Ivan a arrumar o avental no final do dia, percebe uma coisa simples:
A verdadeira sabedoria não está nos rascunhos que nunca enviamos.
Está na massa que deixámos descansar o tempo suficiente.
Porque o mundo continua de pé graças a muita gente que trabalha em silêncio e quase ninguém vê.



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