O engano da presença
Há enganos que não entram pela porta da frente. Instalam-se devagar, com a delicadeza das coisas que não parecem perigosas.
À primeira vista, parecia que estava tudo certo. Havia mensagens, havia respostas, havia presença. E durante algum tempo, deixei-me acreditar que isso bastava. Confundi proximidade com vínculo, hábito com cuidado, presença com encontro.
Também eu acreditei nesse intervalo morno onde quase tudo parece suficiente. Não porque não visse, mas porque há ausências que sabem responder a horas certas. Há silêncios que não interrompem a conversa, mas esvaziam-na por dentro. Havia gestos que me tocavam a pele, mas nunca chegavam realmente até mim.
No princípio, o que faltava não tinha nome. Era só uma leve desordem em mim. Uma coisa sem ruído, sem prova, sem escândalo. Como entrar num lugar aquecido e, ainda assim, sentir frio. Como falar durante muito tempo e sair com a sensação de não ter sido visto. Nem tudo o que pesa faz barulho. E, às vezes, é isso que mais custa.
Durante algum tempo, adaptei-me. Ou convenci-me de que me adaptava. Disse a mim mesmo que meia presença talvez fosse melhor do que ausência nenhuma. Porque o vazio completo assusta. Porque, às vezes, parece mais suportável receber metade do que aceitar que não há nada.
Mas o meu corpo começou a saber antes de mim. E o meu silêncio também. Chegou um momento em que fingir começou a cansar mais do que aceitar. Quando falava e percebia que não era ouvido. Quando estava ali, mas não era encontrado. Quando dava, e do outro lado não havia lugar onde eu pudesse realmente existir.
E isso cansou-me. Cansou-me de um jeito tranquilo. Sem drama. Sem discussão. Sem um fim claro. Só um desgaste lento. Uma solidão estranha. Daquelas que aparecem quando estamos sozinhos com alguém mesmo ao lado.
Foi aí que percebi uma coisa simples. Simples de dizer, difícil de aceitar.
Nem toda a presença é encontro.
E há pessoas que nunca chegam a ir embora, mas também nunca chegam a ficar.



Comentários
Enviar um comentário