O Batismo de Asfalto

Era um sábado de manhã. Pouco passava das oito e o cheiro a pão acabado de sair do forno já se tinha instalado na Moura.

O Tó, porém, tinha a cabeça noutro lugar. Encostado ao balcão, percorria o ecrã do telemóvel com o olhar de quem estuda fotografias de férias que o ordenado não permite pagar.

Com um suspiro pesado, deu o veredito.

Chega de autocarro 500 às sete da manhã. Vou comprar um carro.

A Avó Amélia, sem levantar os olhos, fez a pergunta que o António da Contabilidade mais temia.

Com quanto?

Três mil e quinhentos, no máximo.

Ela parou o que estava a fazer, olhou-o por cima dos óculos e falou com a autoridade de quem já viu muita farinha.

Ó Tó… com três mil e quinhentos compras um carro que já morreu duas vezes.

Ele encolheu os ombros com aquele brilho de teimosia.

Não faz mal. Eu trato da terceira ressurreição.

Às dez e meia, o Tó já estava em Gaia, no pátio de um stand chamado Carros Milagre Lda.

O nome, suspeitou logo à chegada, prometia mais intervenção divina do que fiabilidade mecânica.

O vendedor, o Sr. Vítor, tinha um penteado tão lubrificado que parecia ter sido finalizado com óleo 5W40.

Apontou para um Peugeot 206 de 2007.

Ao abrir a porta, o Tó foi atingido por um perfume que misturava tabaco antigo, mofo e maré baixa.

Tem ar condicionado? perguntou o Tó, já a recuar.

O Sr. Vítor sorriu, imperturbável.

Tem o sistema 2-80, ó Tó.

Como assim?

Duas janelas abertas a oitenta à hora. É o ar condicionado mais ecológico do mercado.

No teste de condução, o Peugeot arrancou com o som de um trator a acordar de ressaca.

Quando o motor morreu na primeira subida, e na segunda, e na terceira, o vendedor explicou que aquele ruído dava “personalidade” ao veículo.

O Tó percebeu rapidamente que a embraiagem era apenas um elemento decorativo.

A tarde seguiu o mesmo guião.

Houve um Fiat Punto que dizia ser de “só uma dona”, mas ainda conservava o taxímetro de doze anos de serviço no Porto.

O banco estava tão afundado que o dono lhe chamou anatómico, porque se adaptava ao rabo de quem se sentava.

Depois surgiu o BMW do Kevin.

Dezanove anos. Boné para trás. Um carro que, segundo ele, “voava”.

Isto está todo tunado, meu! dizia o rapaz com entusiasmo.

O Tó espreitou o motor, que parecia ter sido mastigado por um cão. No chão havia óleo suficiente para desenhar quase o símbolo do Benfica.

Pois voa… direto para a sucata.

Às cinco e quarenta e cinco da tarde, o Tó estava sentado no passeio.

Desiludido.
Cansado.
Quase pronto para pedir desculpa ao motorista do 500.

Abriu o OLX uma última vez.

E lá estava ele.

Um Renault Clio 1.5 dCi de 2008. Azul. Em Matosinhos.

O encontro foi diferente.

O carro pertencia a um senhor reformado que tratava a mecânica com o mesmo respeito com que ia à missa e ao Pingo Doce.

Tinha 178 mil quilómetros e as revisões em dia.

O Tó passou a mão no volante e sentiu, finalmente, que tinha encontrado um velho amigo.

Aceita três mil euros e uma caixa de bolas de Berlim da Moura? arriscou o Tó.

O homem pensou.
Olhou para o carro.
Depois para o neto que o acompanhava.

Três mil e cem… e duas caixas.

Aperto de mão.

Negócio fechado.

Às sete e pouco, o Tó estacionou triunfalmente à porta da padaria.

Entrou com as chaves na mão.

Comprei um Clio!

Os clientes, entre cafés e conversas de fim de dia, bateram palmas.

A Avó Amélia aproximou-se da janela, limpando as mãos ao avental. Olhou para o carro azul e sorriu.

Assim já parece uma família.

O Tó guardou as chaves no bolso.

Nesse dia percebeu uma coisa.

O mercado de carros usados é a maior prova de resistência à imaginação humana.
É o único lugar onde um motor a bater bielas tem carisma e a ausência de travões é considerada uma escolha minimalista.

Adeus, autocarro 500, murmurou ele. Pelo menos até à próxima revisão grande.

Às vezes, a vida é como um stand de beira de estrada.

Aparecem-nos promessas com full extras, sorrisos lubrificados a óleo sintético e muita gente a tentar vender-nos o erro como se fosse uma virtude.

Para encontrar o que é real, seja um carro, um amor ou um caminho, é preciso a paciência de quem espera o pão levedar.

O Clio azul não é perfeito.

Mas é honesto.

E, no fim de contas, entre um BMW que voa para a sucata e um Renault que me leva à missa e ao Pingo Doce, escolho sempre o que me permite dormir descansado sem precisar de um milagre para arrancar na manhã seguinte.

Vemo-nos na estrada.

Ou na paragem do 500, se a embraiagem decidir tornar-se decorativa outra vez.




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