O Amor de Quem Sabe Estar Só
Na Moura, há dias em que o ruído não chega a tapar o silêncio. O tilintar das chávenas, o funcionamento do forno, a D. Ermelinda a comentar a vida dos outros… e, no meio disso tudo, o Tó às vezes fica ali, parado, a mexer o café já frio, como quem está mais dentro de si do que no mundo.
Foi num desses momentos que lhe ocorreu uma coisa simples, mas difícil de explicar.
O amor de quem sabe estar só é diferente.
Não chega com pressa, nem com aquela urgência disfarçada de carinho. Não vem para preencher espaços vazios nem para tapar silêncios incómodos. Vem inteiro. Vem de quem já aprendeu a ficar consigo próprio sem fugir.
E isso muda tudo.
Há uma serenidade estranha em quem não precisa do outro para se sentir completo. Não é frieza. Não é distância. É presença. Uma presença que não se agarra, que não pede garantias, que não vive com medo de perder.
É um amor que fica porque quer.
Não porque precisa.
O Tó já percebeu, entre uma conta que não bate certo e um sábado que desaparece sem dar explicações, que há uma diferença grande entre gostar de alguém e precisar de alguém. Uma prende. A outra escolhe.
E escolher… dá mais trabalho.
Quem sabe estar só já atravessou dias longos. Dias em que a casa parecia grande demais, em que o silêncio fazia eco. Mas também foram nesses dias que descobriu qualquer coisa importante: que ainda assim havia vida ali. Que ainda assim havia beleza.
E talvez seja por isso que, quando ama, ama de outra forma.
Sem dívida.
Sem pressa.
Sem necessidade de provar nada.
Ama como quem oferece, não como quem pede.
Talvez o amor mais verdadeiro seja esse. O que escolhe ficar mesmo sabendo que podia ir embora. O que não depende, mas cuida. O que não exige, mas está.
Na Moura, ninguém fala disto assim. Não dá para dizer estas coisas enquanto se tira um café ou se vira uma fornada de pão. Mas o Tó sabe que está lá, nas entrelinhas. Nos olhares que demoram mais um segundo. Nas pessoas que ficam sem fazer barulho.
E talvez seja isso que mais importa.
Perceber que amar não é encontrar alguém que nos complete…
mas alguém com quem vale a pena caminhar, já inteiros.



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