Diferentes mundos
O Tó reparou que há pessoas que parecem não ter nada em comum e, mesmo assim, entendem-se melhor do que muitas que pensam exatamente da mesma maneira. Nem sempre se percebe porquê, mas acontece. Às vezes, parece até que duas pessoas iguais se aborreceriam em menos de uma semana, enquanto duas completamente diferentes guardam conversa para anos.
Ele percebeu que não é preciso ser igual para caminhar junto. Cada um traz o seu feitio, o seu ritmo e as suas manias. Há quem fale o tempo todo e quem precise de silêncio para respirar; há quem decida tudo em cinco minutos e quem precise de dois dias e um café para pensar. Visto de fora, parece desajustado, mas é precisamente nessa diferença que as coisas se equilibram. Um trava, o outro puxa. No fim, acabam por chegar mais ou menos ao mesmo sítio.
O amor, concluiu o Tó, não transforma duas pessoas numa só pessoa organizada. Se o fizesse, metade dos casais não sobreviveria à primeira semana. O que o amor faz é algo mais prático: cria um espaço onde cada um continua a ser quem é, sem deixar de estar ao lado do outro. As diferenças não desaparecem; ficam é mais fáceis de viver. Às vezes, tornam-se até indispensáveis.
Ele já viu quem precisasse de silêncio para pensar viver com quem precisava de falar para perceber o que sentia. Viu quem amasse a rotina conviver com quem mudava de planos a meio do caminho. Não era sempre fácil, mas era possível, e era essa mesma diferença que mantinha a relação viva. Se fossem iguais, talvez se entendessem mais depressa, mas também se cansariam mais cedo.
Amar alguém é aceitar que o outro tem um mundo próprio que nunca vamos compreender totalmente. Não se trata de concordar em tudo, mas de aprender a conviver com o que é diferente de nós sem fazer disso um problema diário. O segredo não é a uniformidade, mas a harmonia; não é concordar sempre, mas saber discordar com carinho.
As diferenças são, muitas vezes, os pontos de apoio que impedem a relação de cair no tédio. No final, o amor é a coragem de caminhar ao lado de alguém que vê o mundo de outra cor e descobrir que essa cor, afinal, também nos fica bem.
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