As presenças que ficam

Há ausências que se instalam em nós como uma mobília antiga: deixamos de a notar, mas é nela que repousamos quando o mundo lá fora se torna demasiado ruidoso.
Certas pessoas têm essa capacidade de se transformar em geografia interior, ocupando os espaços vazios com uma substância feita de memória viva.

O esquecimento é muitas vezes uma ilusão da pressa. Acreditamos que o tempo apaga os rostos, quando na verdade apenas os depura, retirando o que era acessório para deixar ficar o essencial. Um modo particular de prender o cabelo, uma escolha de uma palavra invulgar, ou a forma exacta como o silêncio era partilhado. São esses fragmentos que sobrevivem à erosão dos dias, provando que a alma tem uma memória própria, imune aos calendários.

É silencioso este fenómeno de carregar alguém nos gestos quotidianos. Um dia percebemos que a nossa forma de olhar o horizonte ou de pousar a chávena de café já não nos pertence por inteiro. Há uma herança invisível na maneira como reagimos à chuva ou na paciência que dedicamos aos outros, como se tivéssemos herdado a melhor versão de quem passou por nós e decidiu, secretamente, ficar.

Talvez a eternidade não seja um conceito vasto e inalcançável, mas este pequeno prodígio de permanecermos em alguém sem ocupar espaço. Uma forma de amor que não exige presença, um pacto silencioso entre o que foi vivido e o que permanece. Algumas pessoas tornam-se o filtro através do qual aprendemos a ver a beleza; não estão ao nosso lado, mas estão na luz com que olhamos o mundo.

Ficamos habitados por essas luzes que não se apagam, mesmo quando a casa arrefece. Não é uma sombra que nos persegue, mas uma claridade que nos protege da solidão absoluta. Porque, no fundo, ninguém parte verdadeiramente quando deixou em nós a semente de um pensamento novo ou a coragem de um afecto que não conhecíamos.

Somos, cada um de nós, um mapa feito de encontros que o tempo não soube desbotar.

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