A permanência do invisível

A saudade entrou numa tarde comum, daquelas que não prometem nada e que se dissolvem no cinzento da rotina.

Não bateu à porta.
Ela nunca bate.

A saudade não pede licença nem espera convite.
Limitou-se a sentar-se no canto do dia com a confiança de quem já conhece a casa, os seus segredos e os seus pontos cegos.

Desde esse instante, as horas começaram a pesar de forma diferente.

Não se tornaram mais longas nem mais curtas, o relógio continuou a fazer o seu trabalho com a mesma indiferença de sempre, mas tornaram-se mais densas.

Cada minuto trazia dentro de si um silêncio espesso, uma espécie de gravidade que puxava os pensamentos para baixo.

Era como se o tempo, cansado de correr, tivesse decidido abrandar um pouco, à espera de alguém que a minha mente sabe perfeitamente que já não vem… mas que o coração, teimoso como um miúdo, insiste em esperar.

Lá fora, o mundo continuou o seu ritual.

O café foi bebido à mesma hora,
com o mesmo travo amargo.
As janelas abriram-se ao fim da manhã para deixar entrar um sol que já não aquecia da mesma forma.
Os passos repetiram-se no mesmo corredor.

Tudo parecia igual.

Mas havia algo ligeiramente deslocado.

Era como se os gestos tivessem perdido o lugar exato onde pousavam, como uma peça de um puzzle que parece encaixar… mas que afinal pertence a outra caixa.

A saudade ficou ali.

Quieta.

Como ficam as sombras ao fim da tarde,
fiéis à forma de quem passou por ali, mas sem o corpo.

Ela conhece bem cada curva da ausência, cada espaço que deixamos vazio por uma mistura de respeito, memória e um certo medo de mexer no que foi verdadeiro.

Com o tempo aprendi uma coisa.

Não é a falta que mais dói.

A falta é aritmética.
É um vazio que se aprende a aceitar,
como se aceita uma cicatriz.

O que dói de verdade é outra coisa.

É a permanência invisível.

Essa certeza estranha de que algo continua vivo dentro de nós… num lugar onde já não há corpo para abraçar nem voz para ouvir.

A saudade ensinou-me que há amores que não regressam.

Mas também não partem.

Não desaparecem.

Ficam.

Ficam na maneira como olhamos pela janela.
No modo como o tempo abranda nos domingos silenciosos.
Na delicadeza com que aprendemos a viver com menos presença e mais profundidade.

Porque a saudade, no fim de todas as contas, 
é exatamente isto:

O amor quando já não tem corpo,
mas se recusa a deixar de ter morada.

E fica ali.

Sentado no canto do dia.

Como quem já conhece a casa.

E eu aprendo, devagar, a viver com ele.

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