Vivemos na era do “cancelar subscrição”.
Se a série fica lenta no terceiro episódio,
saltamos.
Se a app de encontros não traz o amor da nossa vida com entrega em 24 horas,
fazemos swipe para a esquerda.
E se a amizade ou o namoro mostram o primeiro sinal de “erro no sistema”, assumimos logo que é defeito de fabrico e pedimos o reembolso emocional.
Sair de cena tornou-se o novo desporto.
É a gourmetização da desistência.
Hoje, qualquer discussão sobre quem deixou a
loiça por lavar já é tratada como “incompatibilidade de astros” ou “falta de
alinhamento energético”.
O Tó aprendeu as coisas de outra forma.
Enquanto a Avó Amélia lhe ensinava que o pão não
tem pressa, ele foi percebendo que as relações também não deviam ter.
Houve manhãs em que quis mandar a farinha, o
fermento e as contas da luz pela janela.
Ir embora era a decisão lógica.
Era o que qualquer pessoa com um manual de
autoajuda rápida faria:
“Corta o que te pesa. Voa livre.”
E ainda assim ficou.
Talvez por teimosia. Mas ficou.
Foi ficando que percebeu uma coisa simples:
o entusiasmo é aquele estagiário que chega cheio de energia na primeira semana,
tira selfies com o avental, mas mete baixa à primeira segunda-feira de chuva.
O que mantém a padaria aberta não é o
entusiasmo.
É a constância.
É aparecer no dia seguinte, mesmo quando não
há aplausos nem filtros de Instagram.
A grande rasteira da modernidade é confundir
atrito com fim.
Há relações que só ficam fortes depois de
atravessarem dias maus.
Depois das conversas difíceis.
Depois daquele silêncio que quase separa.
Não é a ausência de conflito que cria solidez.
É a escolha de permanecer, mesmo quando o sofá e a desistência estão ali tão
perto um do outro.
Mas há uma distinção que levou tempo a
aprender.
Há coisas que não se deixam só porque ficaram
difíceis.
E há coisas que se deixam quando já não há verdade nelas.
Às vezes as relações falham e o cansaço pesa.
Mas o alicerce é real. A ligação existe.
É apenas uma fase de obras na fachada.
Outras vezes olhas para o lado e percebes que
estás num cenário de papelão.
Não há ligação. Não há propósito.
É só um hábito que cheira a mofo.
Distinguir uma coisa da outra é que dá
trabalho.
Não há manual. Só experiência.
E alguma honestidade para com o que se sente
mesmo, o que é difícil, porque a honestidade raramente chega a horas.
O Tó não fala disto como quem cita um livro.
Fala como quem abriu a porta em dias que não
prometiam nada.
As raízes não precisam de audiência.
Crescem no escuro, sob pressão, enquanto o mundo lá fora gira à procura da
próxima novidade descartável.
Ficar quando ainda há verdade também é
coragem.
Só não dá fotografias bonitas.
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