A Ditadura do Sr. Vasconcelos

 

Todos nós temos um Sr. Vasconcelos na vida.
O meu tem nome, usa gravatas sempre direitas e fala baixo,
o suficiente para nos fazer ouvir melhor do que um grito.

Há vozes assim.
Não levantam o tom.
Levantam o peso.

O Sr. Vasconcelos acredita na ordem como outros acreditam
na sorte.
Para ele, tudo devia caber numa folha bem feita:
Linhas direitas,
contas certas,
zero surpresas.

Se um número falha, não é só um erro.
É quase um problema de carácter.

Para ele, hesitar já é meio erro.

Trabalhar ali é aprender a medir tudo:

O tempo,
as respostas,
até o ar.

Há dias em que dou por mim a responder antes de pensar,
ó para não parecer lento.
E há silêncios que não são pausa, são controlo.

O Sr. Vasconcelos não é mau homem.
Só acredita mesmo que isto é viver:

Fazer mais,
errar menos,
parar nunca.

E vai dizendo isso sem dizer.
Que tempo é dinheiro.
Que a vida começa quando o trabalho acaba, se ainda houver
tempo.
O problema é que, assim, a vida vai ficando sempre para depois.
Para ele, uma nódoa de café num relatório é um desastre.
Para mim, às vezes, é só sinal de que alguém esteve ali com sono,
pressa… e vida.
Que sentir é um luxo.

Às seis, desligo o computador.
Mas o António demora a sair.

Fica preso às contas, aos prazos, às coisas por fechar.
Como se ainda tivesse de provar qualquer coisa.

Depois caminho até à Moura.

E é aí que alguma coisa muda.

À porta da padaria, deixo o resto.

As contas.
Os prazos.
As pressas.

Entro.

E o mundo volta a ter tamanho de gente.

Há barulho de chávenas.
Alguém pede “o do costume”.
A Avó Amélia limpa o balcão como quem já viu tudo.

E ninguém me pede desempenho.


Ali não sou o António que tem de acertar.

Sou só o Tó que chegou.

E às vezes isso chega.

O Sr. Vasconcelos pode mandar até às seis.
Mas não manda em tudo.

Não manda no caminho até casa.
Não manda no silêncio depois do dia.
Não manda na parte de mim que ainda sabe parar.

E ainda bem.

Porque no fim, as contas podem bater certas…

Mas se a vida não mexer cá dentro,
ficou qualquer coisa por viver.



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