A Ditadura do “Depois”


O Tó tem um talento que, se desse para exportar, punha o PIB ao nível do Dubai: sabe adiar com elegância.
Ele não empurra com a barriga. Faz “gestão estratégica de expectativas temporais”.

No fundo, é estacionamento de decisões em segunda fila, com pisca ligado e confiança de quem acha que está a organizar o trânsito mundial.

As frases preferidas dele já são património imaterial do Norte:

“Quando isto acalmar, trato disso.”
“Agora não é a melhor altura.”
“Para a semana começo, sem falta.”

Esse “sem falta” já faltou mais vezes do que o carteiro em agosto. É praticamente tradição.

O problema é simples: isto nunca acalma.
O stress é como a VCI às oito da manhã. Não desaparece. Só muda de faixa e começa a buzinar dentro da cabeça com mais convicção.

E o Tó começou a desconfiar de uma coisa perigosa: o “Depois” não é organização. É medo. Mas de camisa bem passada.

Depois há o Eu de Amanhã.

Esse fenómeno raro da natureza. Acorda às seis sem despertador. Vai ao ginásio como quem vai receber medalha olímpica. Bebe sumos verdes com expressão iluminada. Resolve conversas difíceis com serenidade de filósofo que já pagou o IRS em janeiro.

O Eu de Amanhã tem postura direita, contas organizadas e toalhas dobradas por cores.

Já o Eu de Hoje tem o joelho a estalar como porta de arrecadação antiga, o chá a arrefecer porque ficou a olhar para o vazio e uma súbita curiosidade científica sobre a vida íntima dos pinguins sempre que precisa de tratar de burocracias.

O problema é que o Eu de Hoje insiste em existir. E é com ele que a vida acontece. Não há suplente.

Havia uma conversa que o Tó andava a empurrar. Daquelas que começam em “e nós?” e acabam num silêncio que pesa mais do que um saco de batatas.

Ele esperava o cenário perfeito: restaurante certo, luz certa, frases ensaiadas como se estivesse a disputar um campeonato de eloquência.

Entretanto, a relação começou a ranger como cadeira velha em chão de madeira.
E o Tó percebeu uma coisa desconfortável: se continuares à espera do momento ideal, ainda acabas sozinho na mesa, a olhar para o guardanapo dobrado em triângulo, como se fosse companhia.

Então falou.

Na cozinha.
Com pão com manteiga.
T-shirt com nódoa geograficamente indefinida que até parecia mapa das ilhas gregas.

Houve gaguez.
Houve um “ó pá” que saiu torto.
Houve silêncio constrangedor que dava para estacionar um camião.

Mas houve verdade.

E a verdade, mesmo desengonçada, pesa menos do que a fuga.

O Tó percebeu que tinha vivido anos em modo rascunho. Escrevia a lápis. Sempre pronto a apagar. Sempre pronto a dizer “não era bem isto”. Como se pudesse adiar oficialmente o falhanço.

Só que a vida não é caderno escolar. É tinta permanente, com erros incluídos. E corretor não existe.

O “Depois” é confortável porque não exige coragem. Mas tem um defeito grave: não dá histórias. Dá só suspense prolongado.

Então começou a fazer coisas pequenas.

Mandou a mensagem que andava a evitar.
Entrou no ginásio mesmo parecendo boneco insuflável em promoção de verão.
Disse o que tinha a dizer sem esperar pela frase perfeita.

Nada épico.
Nada cinematográfico.
Só ação imperfeita.

Sentado no banco da escada, a recuperar o fôlego e um bocadinho de dignidade, o Tó percebeu o que sempre soube, mas fingia não saber: viver em pausa não poupa energia. Gasta-a.

É como deixar o carro ligado em ponto morto. Não sais do sítio, mas o depósito vai descendo. E ainda ficas a cheirar a gasolina emocional.

O Amanhã Perfeito que espere sentado.

O Tó decidiu usar o Hoje Real.
Com joelho a estalar.
Medo incluído.
Verdade meio torta.

Ele já não quer ser promessa em PowerPoint.

Quer estar.

E estar, descobriu ele, dá muito mais trabalho do que adiar.
Mas pelo menos… acontece.

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