Viver é, em grande parte, um exercício de perdão.
Não um perdão ingénuo, que apaga o que aconteceu.
Mas um perdão lúcido, que reconhece a dor.

Há coisas que nos magoam de forma tão funda que passam a fazer parte da nossa voz interior.
E, se não formos atentos, acabamos por viver com o passado, como se ele fosse um destino.
Mas o perdão vem precisamente para isso:
para nos libertar do peso que não nos permite caminhar.

Perdoar não é desculpar.
É compreender que carregar a ferida por tempo demais
nos transforma numa pessoa que já não somos.

E que, a certa altura, a dor deixa de ser apenas o que nos fizeram…
e passa a ser aquilo que escolhemos continuar a alimentar.

Viver não é uma linha direita.
É um caminho com curvas.
E, por vezes, com quedas.

Só que uma queda não é sempre uma derrota.
Há quedas que são aviso.
Há quedas que são corte.
E há quedas que, com o tempo, se revelam impulso.

A queda ensina-nos uma coisa essencial:
a força não é ausência de fragilidade.
A força é a capacidade de nos refazermos
sem perdermos a dignidade.

E talvez seja esse o segredo:
cada vez que a vida nos empurra para baixo,
ela também nos dá a hipótese de criar raízes mais fundas.
E raízes mais fundas permitem ir mais alto.
Não por orgulho, mas por verdade.

Seguir em frente não é esquecer.
É lembrar sem ficar preso.
É carregar a memória com leveza.

Porque viver, no fim, é isto:
saber deixar ir, saber recomeçar,
e aprender que, mesmo depois de cair,
ainda somos capazes de nos erguer —
mais inteiros, mais claros,
e mais livres.

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