O que pesa não é o drama. É o quase que nunca chegou


O Tó acha que a vida nos engana no tamanho das dores. Crescemos a achar que o que parte um homem é o estrondo, o drama com banda sonora do Hans Zimmer e a porta a bater com tanta força que o quadro da comunhão da vizinha do lado fica torto. Pensamos que a dor é aquele “Acabou!” gritado com eco, digno de uma novela da Globo.

Pois o Tó, que de vida percebe tanto como de farinha, diz que o perigo não é o barulho.
O perigo é o quase.

O quase é um bicho rasteiro. É o "quase bom dia" que ficou preso na garganta de alguém porque o café estava frio. É o "quase abraço" que se transforma naquela palmadinha nas costas, seca e rítmica, que parece que estamos a tentar desentalar uma espinha de peixe. É o "quase orgulho" que alguém engoliu porque, lá está, “não era preciso dizer, ele já sabe”.

O Tó aguenta dias de cão. Contas que chegam com juros de agiota, o autocarro que decide fazer greve existencial quando ele está atrasado, a chuva que lhe entra pelo colarinho... isso ele aguenta. Resmunga um “carago” entredentes, ajusta o boné e segue a marinha. Isso é luta greco-romana, e o Tó tem cabedal para isso.

O problema é o quase nada. É quando alguém olha para o Tó, mas vê através dele, como se ele fosse um vidro duplo de uma repartição de finanças.

É o doce que ele faz com carinho, a pessoa come, limpa o canto da boca, diz um "está bom" protocolar e vai-se embora sem perguntar o ingrediente secreto. Não dói na hora. Vai-se pousando. Como pó fino nas prateleiras. Um dia o Tó olha e pensa: "Isto com um sopro vai". Mas depois passa o dedo e percebe que já dá para escrever o nome completo e o número de contribuinte na camada de negligência.

Há ausências que não fazem barulho nenhum, mas fazem um eco de discoteca vazia. E o eco é pior, porque responde quando já ninguém está lá para ouvir. Ele sabe disso porque às vezes está na cozinha, com o avental meio torto, e lembra-se de uma palavra que o pai nunca disse. Não foi um insulto. Foi só um silêncio que ficou a morar nele como um inquilino que não paga renda, não ajuda nas limpezas e ainda ocupa a garagem.

Ninguém faz funerais a "quases". Ninguém leva coroas de flores a um "logo falamos" que morreu de abandono. Mas à noite, essas pequenas distrações voltam com um GPS afinadíssimo. Sabem exatamente onde tocar: ali no peito, um bocadinho à esquerda, por baixo da t-shirt de propaganda.

O Tó ri-se disto, claro. O humor é o guarda-chuva de dois euros que ele abre quando começa a chover interiormente. Mas há dias em que nem a piada sai, e é aí que a coisa fica séria. Porque ele percebe que não foi uma grande catástrofe que o deixou cansado.

Foi a soma.
Foi o desgaste.

Como uma pedra que não racha com uma marretada, mas sim com microfissuras invisíveis até que, um dia, já não respira igual.

Coragem, diz o Tó entre dois suspiros, talvez não seja aguentar tudo calado como um mártir da paróquia. Coragem talvez seja olhar para esses ninhos de pó e dizer: “Isto doeu, carago.” Não para fazer uma cena, mas só para não deixar acumular mais peso. Ele já carrega peso suficiente; não precisa de carregar o que os outros não disseram.

Por isso, ele fica. Fica quando a conversa é mais desconfortável que uma cadeira de plástico ao sol. Fica quando o orgulho lhe diz para ir dar uma volta ao bilhar grande.

Talvez a fissura se feche assim.
Com presença.

No fim do dia, sentado na escada, ele encolhe os ombros. Ninguém morre de um impacto só. Morre-se da soma invisível. Mas depois levanta-se, abre a porta e pensa: enquanto houver alguém a entrar, o ar ainda circula.

E se for preciso, ele passa o pano.

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