O medo de não sermos suficientes...


O Tó sempre achou que o Carnaval era aquela altura do ano em que as pessoas se vestem de palhaço… mas continuam a fazer IRS na mesma.

E depois trabalhou em contabilidade.

E percebeu que há quem ande mascarado o ano inteiro e ainda pague prestação do carro por isso.

Naquela altura ele ainda usava camisa engomada ao domingo como quem vai para a missa do Excel. Sapatos a fazer “toc toc” no corredor, que é o som oficial de um homem que quer parecer importante. O escritório tinha ar condicionado emocional: tudo morno, tudo controlado, ninguém transpirava sentimentos.

Ele também não.

Mas estava a secar por dentro como bacalhau ao sol.

Sexta-feira de Carnaval. Email da direção: “Vamos dinamizar a equipa.”

Quando alguém quer dinamizar, normalmente alguém vai sofrer.
Tema: profissões de sonho.

À volta dele apareceu um piloto que nunca tinha voado nem num simulador da Worten. Um “CEO” que ainda pedia autorização para tirar férias. Uma “influencer” que tinha 312 seguidores, dois eram primos e um era a mãe em conta falsa.

O Tó foi de contabilista.

Não precisou de fantasia. Já trazia.

Perguntaram-lhe, a rir:
“Então e tu? Não sonhavas ser outra coisa?”

Ele encolheu os ombros.
“Ó pá… eu já sou outra coisa. Isto é que é o cosplay.”

Riram todos.

Ele também.

Mas foi aquela risada meio torta, que sai quando o coração está a tentar não fazer barulho.

Durante o dia começou a reparar num padrão científico muito interessante: quanto maior o sonho estampado na camisola, maior a olheira por baixo da maquilhagem.

O “CEO” falava alto mas tremia a mexer no PowerPoint.
A “viajante do mundo” nunca tinha passado de Valongo.
O “influencer” estava a fazer contas mentais à gasolina.
E o Tó ali, campeão nacional de parecer bem.

Ele tinha desenvolvido uma especialidade: o homem que aguenta. Aguenta prazos. Aguenta silêncios. Aguenta aquela sensação de que está no sítio certo… mas com a alma estacionada noutro lado.

À hora de almoço houve concurso de melhor disfarce. Ele bateu palmas educadas, com a postura de quem já aceitou que nunca vai ganhar nada que envolva entusiasmo.

Sentiu uma coisa estranha.

Não era inveja. Nem raiva.

Era aquela sensação de estar a viver a vida em modo teste gratuito.

À tarde perguntaram-lhe se ele não queria “arriscar mais”.
Ele pensou que o maior risco que tinha corrido até ali tinha sido não ser ele próprio durante anos seguidos. Isso sim, é desporto radical.

No metro, ao regressar a casa, olhou para o reflexo no vidro.
Parecia adulto.

Parecia responsável.
Parecia seguro.
Parecia tanta coisa que até cansava.

E percebeu uma verdade simples, daquelas que não vêm em PowerPoint: ficar no sítio errado também é uma forma de mascarada. Só que essa não acaba à meia-noite.

No Carnaval seguinte já não foi ao concurso do escritório. Disse que tinha assuntos pessoais.

Tinha.

Passou o dia a ajudar em casa, a fazer coisas simples, práticas, reais. As mãos sujas, a cabeça mais limpa. E pensou:
Há quem se masque para fugir de si.

E há quem trabalhe anos numa máscara até ter coragem de a tirar.
Ele ainda não tinha tirado totalmente a dele.

Mas já não a confundia com a cara.

E para um homem que sempre teve medo de não ser suficiente, descobrir quem é já é meio caminho andado.

É o que é.



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