O domingo à noite devia vir com aviso do Infarmed.
O domingo à noite devia vir com aviso do Infarmed.
E daqueles em letras grandes, com caveira e tudo:
“Pode provocar ansiedade, pensamentos parvos e vontade súbita de emigrar.”
O Tó acorda ao domingo cheio de confiança. Aquela confiança burra, atenção. Almoça bem, repete sobremesa, encosta-se na cadeira e pensa:
“Olha… afinal até estou porreiro.”
Erro clássico. Fatal. Ao nível de achar que dá para beber um café depois da meia-noite e dormir na mesma.
Às seis da tarde, o corpo já percebe.
Às sete, a alma começa a suar.
Às oito, instala-se o pânico, mas um pânico organizado, que é para não dar muito nas vistas.
O domingo à noite não chega devagar. Não.
Entra sem bater, senta-se no sofá e diz:
“Então, vamos falar da tua vida?”
O Tó tenta fugir. Liga a televisão. Tudo mau. Filmes que já viu três vezes, jogos que não lhe dizem nada, programas onde as pessoas estão ainda mais cansadas do que ele , o que é dizer muito. Faz zapping com violência, como se o comando tivesse culpa disto tudo.
— Ó pá… ainda ontem era sexta, carago.
Vai à cozinha. Abre o frigorífico. Fecha.
Abre outra vez, só para confirmar se entretanto apareceu lá uma solução milagrosa. Não apareceu. Come qualquer coisa sem fome. Uma fatia de pão às nove e meia da noite. Pão com manteiga. Aquilo não é comida. É desistência emocional com hidratos.
Depois começa o ritual macabro: preparar a semana.
A camisa de amanhã olha para ele como quem diz: “vais sofrer.”
As calças já parecem cansadas sem terem saído do sítio.
Os sapatos estão ali, quietos, mas cheios de futuro, e isso irrita profundamente o Tó.
— Vocês também podiam ir sozinhos, não? Murmura, a falar com a roupa como pessoa perfeitamente equilibrada.
O pior momento chega com as chaves.
As chaves nunca fizeram mal a ninguém.
Mas ao domingo à noite fazem barulho a mais.
Parece que dizem: “Segunda-feira, meu amigo. Sem anestesia.”
O Tó senta-se outra vez no sofá, exausto, como se tivesse corrido uma maratona emocional sem sair de casa. Começa a fazer contas absurdas:
“Se eu adormecer agora e acordar só em quarta… notam?”
“Se fingir que estou doente, até quando dá?”
“Se emigrar esta noite, ainda vou a tempo?”
Ri-se sozinho. Gargalhada curta, meio histérica. Humor de quem sabe perfeitamente que não vai fugir, mas gosta de fingir que ainda há hipótese.
E depois acontece sempre o mesmo milagre triste:
nada muda.
A semana vem na mesma.
Ele levanta-se na mesma.
Resmunga, faz uma piada parva, segue.
O domingo à noite ganha.
Não por KO.
Ganha aos pontos.
E o Tó, já deitado, antes de adormecer, pensa:
“Pronto… sobrevivi a mais um. Amanhã logo se vê.”
Ri-se outra vez. Baixinho.
Porque se não rir, chora.
E rir, mesmo assim meio torto, continua a ser mais barato que terapia.



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