O amor não aceita entregas fora de prazo


O Tó ainda hoje se lembra de um Dia dos Namorados, quando ainda trabalhava em contabilidade. Lembra-se porque nesse ano percebeu duas coisas: que o amor é bonito… e que o IRS não tem coração.

Na altura era o homem da gravata torta. Azul-escura, comprada em saldo, apertada demais para quem ainda estava a aprender a ser adulto. Olhava-se ao espelho e pensava:
“Ó pá… pareço responsável.”

Depois passava oito horas a lançar despesas de representação como quem empilha desculpas.

Fevereiro. Porto gelado. O 500 atrasado. Pasta cheia de faturas e um plano romântico que cabia num post-it. Jantar às oito. Restaurante com guardanapo de pano. Ele sentia-se um galã das finanças.

Só que a contabilidade não respeita Cupido.

Às seis e meia o chefe apareceu.

“António, precisamos fechar isto hoje.”

António.
Quando lhe chamavam António, vinha frete.

O Tó olhou para o relógio. Depois para as folhas. Depois para o Excel.

“Carago… isto é mais apertado que fecho de caixa em dezembro.”

Ficou.

Porque o Tó sempre teve esta mania de ficar. Não era heroísmo. Era hábito. Se havia coisa para fechar, fechava-se. Se alguém precisava, ficava-se. Mesmo que fosse uma empresa que nem sabia o nome da namorada dele.

Às oito e um:

“Estás a caminho?”

“Já vou sair.”

Mentira pequena. Daquelas que compram minutos e vendem confiança.

Às nove ainda reconciliava contas.
Às nove e meia o restaurante ligou.

“Mantenha a reserva. O amor está em trânsito.”

O amor não estava. Estava sentado sozinho numa mesa para dois.

Saiu depois das dez. Flores compradas numa bomba de gasolina. Romantismo versão emergência fiscal.

Ela estava à porta. Não chorava. O que é sempre pior.

“Desculpa.”

Sentiu-se mais pequeno que saldo negativo.

Tentou humor.

“Se o amor pagasse IVA eu era milionário.”

Silêncio.

O jantar soube a fatura vencida. E ali o Tó percebeu: não era falta de sentimento. Era falta de presença.

E isso doía mais do que qualquer balanço mal fechado.

Dias depois, ela acabou. Disse que não queria alguém que estivesse sempre “quase a chegar”.

E “quase” é palavra perigosa. É tipo golo ao poste. Não conta.

O Tó não discutiu. Engoliu. Fez uma piada sobre juros de mora emocionais. E foi para casa.

Sentado na cama, ainda de camisa, percebeu uma coisa simples:

Trabalho paga contas.
Presença paga amor.

Naquele Dia dos Namorados percebeu que amor não é reserva feita. É mesa ocupada.

E prometeu a si mesmo:

Se alguém perguntar “vais chegar?”, ele chega.

Pode não dizer bonito.
Pode não ter flores certas.
Pode até chegar despenteado.

Mas chega.

Hoje, na Moura, quando alguém leva dois bolos no Dia dos Namorados, o Tó embrulha devagar. Mete sempre mais um guardanapo. Às vezes oferece um doce extra.

Não diz “felicidades”.

Diz só:
“Vá… não se atrasem.”

Fica a olhar a porta a fechar.

E sorri.

Porque aprendeu uma coisa que não vinha em manual nenhum de contabilidade:

O amor não aceita entrega fora de prazo.

E isso, agora ele sabe.

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