O 500
Não às 7:00, como tinha prometido solenemente na noite anterior.
Nem às 7:10, como renegociou consigo próprio às 7:04, num acordo sem testemunhas.
Às 7:27.
Aquela hora em que o cérebro ainda está a ligar fios
e o corpo já desistiu de ser alguém com futuro.
Levantou-se num salto mais moral do que físico.
Saiu de casa a pensar que amanhã é que ia ser.
Alongamentos.
Água com limão.
Uma vida organizada.
Amanhã. Sempre amanhã, esse grande profissional.
Foi para a paragem do 500, na Praça da Liberdade.
A fila já lá estava.
A fila de sempre.
Gente com cara de quem acredita nos transportes públicos
como quem acredita em aparições.
Com fé.
E pouca evidência científica.
O autocarro chegou cheio.
Cheio mesmo.
Daqueles em que, se alguém espirra, três pessoas fazem logo um balanço da vida
e uma pede desculpa sem saber porquê.
O Tó entrou à força do corpo e da culpa.
Ficou entalado entre um miúdo com uma mochila maior que o futuro
e uma senhora carregada de sacos do Bolhão.
O cheiro explicou tudo.
Um deles tinha passado pela peixaria.
E não era o estudante.
A senhora começou a gritar para o motorista,
com a voz de quem já organizou revoluções:
— Ó stor, pára ali na Vitória! Tenho de ir à peixaria do Zé Manel!
O motorista respondeu com a calma de quem já perdeu qualquer esperança:
— Minha senhora, isto é o 500. Não é o Uber Black.
Com a cara colada ao vidro, o Tó pensou:
Um euro e noventa.
É isto que custa cheirar cavala às sete e meia da manhã.
Isto devia dar pontos no IRS.
Ou pelo menos um abraço demorado.
Chegou ao trabalho na Boavista com o cabelo em estado pós-conflito armado.
O Sr. Vasconcelos chamou-o logo.
Benfiquista.
Daqueles que acreditam em dietas enquanto limpam açúcar do canto da boca.
— António, preciso do relatório das amortizações até às onze.
E traz-me um café do Guarany. Sem açúcar, que estou de dieta.
O Tó assentiu.
Pensou nas três bolas de Berlim do dia anterior.
Uma tinha tanto creme que ainda deixou memórias na sobrancelha.
Dieta é um conceito flexível.
Como o tempo.
E a consciência.
Ao almoço foi à Adega Sports.
O único sítio onde a francesinha ainda não pede fiador.
O Zé do Prego olhou para ele:
— O costume? Especial sem ovo?
Aquilo doeu.
— Com ovo, Zé. Hoje estou rebelde.
Enquanto esperava, chegaram os áudios da mãe.
Nove.
O primeiro parecia um podcast semanal.
— Ó António… a vizinha Fátima viu-te a falar sozinho… tu estás bem, filho?
Isso é solidão?
Queres vir jantar? Tenho sopa de nabiças…
O Tó suspirou.
Falar sozinho agora é loucura.
Mas se fosse num podcast, já era conteúdo patrocinado.
Ao fim do dia foi a pé até à Ribeira.
Precisava de ver água a andar,
só para confirmar que o mundo ainda não tinha desistido.
Na Cordoaria viu um turista espanhol a pedir uma bifana sem pão.
O Tó parou.
Em silêncio.
Há crimes que não se denunciam.
Observam-se.
Na Ribeira sentou-se no muro.
Comprou uma cerveja no supermecado.
Porque a vida já cobra que chegue.
O sol descia devagar sobre o Douro.
A ponte acendia-se sem espalhafato.
Como quem diz “estou aqui” sem pedir atenção.
O Tó pensou no relatório falhado.
Na cavala respirada.
No autocarro cheio.
Na mãe preocupada.
Depois deu um gole.
E ficou só ali.
Quieto.
A ver o rio passar.
Falhou muita coisa naquele dia.
Mas o Porto ficou.
E, às vezes, isso chega
para não se sentir sozinho.



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