Nem todas as portas que não abrem são rejeição


O Tó sempre desconfiou que as máquinas escolhem vítimas. Não por maldade, mas por uma espécie de intuição electrónica que detecta fragilidades invisíveis. Há pessoas a quem tudo obedece, como se o mundo lhes reconhecesse a assinatura. E há outras que parecem entrar numa sala e activar, sem querer, o protocolo do erro improvável.

A impressora do escritório era exemplar com todos. Produzia relatórios com a disciplina de um funcionário exemplar e fotografias com uma nitidez quase espiritual. O gato do chefe surgia no papel com uma dignidade que nem ele sabia que tinha. Mas quando o Tó carregava em imprimir, a máquina lembrava-se de todos os traumas da sua infância industrial.

Encravava com dramatismo. Não era um simples bloqueio. Era um manifesto. Um “grrr-clac-rrr” carregado de mágoas antigas, como se dissesse que havia ali um assunto mal resolvido entre ambos. E quando apareceu no ecrã “Erro: papel inexistente”, com resmas suficientes para forrar a casa da mãe e embrulhar três natais consecutivos, o Tó percebeu que aquilo já não era técnico. Era pessoal.

Ele abriu e fechou gavetas com a delicadeza de quem penteia uma criança antes da fotografia da escola. Alisou folhas como quem tenta convencer o destino com gestos pequenos. Soprou para dentro da máquina com a esperança ingénua de que a tecnologia também pudesse comover-se. Falou-lhe baixo, educado, porque nunca foi homem de criar inimizades, nem de carne, nem de plástico, nem de toner.

A luz vermelha piscou. Pequena, acusadora, indiferente. Há luzes que não iluminam, apenas expõem. E naquele silêncio de escritório, pontuado por tossidelas diplomáticas, a impressora fez um “clac” arrogante, porteiro de discoteca tecnológica a decidir quem entra e quem fica à porta.

O Tó tentou de novo com a mesma fé com que se carrega no botão do autocarro quando já se está atrasado mas ainda se acredita na pontualidade do universo. Ajustou margens com uma concentração quase fiscal. Carregou em imprimir como quem pede uma segunda oportunidade. Recebeu apenas um suspiro mecânico.

Ficou então a olhar para a máquina como se olha para uma ex-namorada que já seguiu em frente e agora responde apenas com mensagens automáticas. Não houve gritos. O Tó nunca foi de escândalos. Houve só aquele pensamento adulto, cansado, que às vezes nos salva de nós próprios: não és para mim.

E talvez o mais difícil da vida seja aceitar que há coisas que não são para nós sem transformar isso numa tragédia. Nem tudo é rejeição. Às vezes é apenas desalinhamento. Um software emocional que não reconhece o outro como compatível.

Desde 2004, desde as perdas que não fizeram barulho mas deixaram eco, o Tó aprendeu a mudar de corredor quando a porta insiste em não abrir. Sem comunicado oficial. Sem dramatização pública. Apenas com a serenidade de quem percebe que insistir nem sempre é coragem.

Começou a usar a impressora do fundo. Mais lenta, mais ruidosa, menos moderna. Mas educada. Imprimia-lhe as folhas todas, por vezes até duas, como quem pede desculpa. E naquela duplicação involuntária havia uma espécie de ternura mecânica que lhe assentava melhor.

Nunca resolveu o mistério. Talvez a primeira impressora continue convencida de que o problema era ele. Talvez fosse. Mas o Tó deixou de precisar de estar certo. Descobriu que há sítios onde se insiste e há sítios onde se muda. E que maturidade não é ganhar todas as batalhas, é saber escolher onde se fica.

Se não funciona contigo, não forces. Muda. Segue. Há corredores inteiros por experimentar e nem todas as luzes vermelhas são sentenças. Algumas são apenas sinais a indicar outra direcção

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