O Tó lembra-se bem desse dia.
Há erros que não passam.
Instalam-se como vizinhos antigos:
Entram e começam logo a pedir sal.
Na altura trabalhava na Fernandes, Silva & Associados.
Terceiro andar da Rua de Santa Catarina.
Mesmo encostado à Padaria Cunha.
A vida gosta destas coincidências maldosas.
É como quem diz:
“não te vou matar… mas também não te vou facilitar”.
Era 1994.
O IVA contava-se em escudos
e o stress vinha em papel químico,
três vias, uma pressão arterial incerta
e aquela culpa permanente
de quem sente que fez asneira
antes mesmo de a fazer.
Numa tarde já cansada de existir,
o Tó arquivou o IVA trimestral da Padaria Cunha.
Ou achou que sim.
Porque aquele IVA resolveu fazer turismo religioso.
Foi direitinho parar ao dossier da Paróquia de Santo Ildefonso.
Sem fé.
Mas com uma convicção impressionante.
Daquelas que convencem até Deus.
Dias depois, o padre recebeu uma notificação das Finanças:
Quarenta e dois mil escudos de IVA.
Motivo: Venda de bolos Jesuítas.
O padre não percebeu.
Rezou.
Rezou melhor.
Mudou de tom.
Depois ligou, já a desconfiar que aquilo era mais teste divino do que erro humano.
O senhor Armando da Cunha percebeu logo.
Não rezou nada.
Pegou no telefone a ferver,
em ponto de caramelo bem puxado,
daquele que cola aos dentes e à alma.
O Tó ouviu o telefone tocar,
ouviu a palavra “Cunha”
e sentiu o estômago a tentar sair do corpo
pelos sapatos,
com bagagem de mão.
Não discutiu.
Não explicou.
Não culpou o sistema, nem a humanidade, nem Mercúrio retrógrado.
Limitou-se a aceitar o destino
como quem sabe que a noite vai ser longa
e sem pão.
Passou a noite inteira a refazer tudo à mão.
Letra de aluno aplicado.
Direitinha.
Quase bonita.
A falhar só no cansaço,
num ligeiro tremor existencial
e numa parte respeitável da sanidade.
No dia seguinte, foi pessoalmente à Cunha.
Levou os papéis certos.
E uma caixa com doze bolas de Berlim.
Não por suborno.
Por sobrevivência emocional.
Juros de mora em açúcar.
O senhor Armando abriu a caixa.
Provou uma.
Mastigou em silêncio.
Silêncio longo.
Daqueles que fazem um homem rever escolhas.
E impostos.
Olhou para o Tó e disse:
— Ó rapaz… se continuares a errar assim, erra todos os meses.
O Tó riu.
Aliviado.
Cansado.
Um bocadinho mais magro por dentro,
como quem paga uma dívida
com o fígado e a autoestima.
Saiu dali com o IVA resolvido,
um desconto vitalício nos Jesuítas,
e a certeza de que, às vezes,
um erro bem remendado
é só o começo
de uma amizade quente…
ligeiramente recheada
e com IVA incluído.
Instalam-se como vizinhos antigos:
Entram e começam logo a pedir sal.
Na altura trabalhava na Fernandes, Silva & Associados.
Terceiro andar da Rua de Santa Catarina.
Mesmo encostado à Padaria Cunha.
A vida gosta destas coincidências maldosas.
É como quem diz:
“não te vou matar… mas também não te vou facilitar”.
Era 1994.
O IVA contava-se em escudos
e o stress vinha em papel químico,
três vias, uma pressão arterial incerta
e aquela culpa permanente
de quem sente que fez asneira
antes mesmo de a fazer.
Numa tarde já cansada de existir,
o Tó arquivou o IVA trimestral da Padaria Cunha.
Ou achou que sim.
Porque aquele IVA resolveu fazer turismo religioso.
Foi direitinho parar ao dossier da Paróquia de Santo Ildefonso.
Sem fé.
Mas com uma convicção impressionante.
Daquelas que convencem até Deus.
Dias depois, o padre recebeu uma notificação das Finanças:
Quarenta e dois mil escudos de IVA.
Motivo: Venda de bolos Jesuítas.
O padre não percebeu.
Rezou.
Rezou melhor.
Mudou de tom.
Depois ligou, já a desconfiar que aquilo era mais teste divino do que erro humano.
O senhor Armando da Cunha percebeu logo.
Não rezou nada.
Pegou no telefone a ferver,
em ponto de caramelo bem puxado,
daquele que cola aos dentes e à alma.
O Tó ouviu o telefone tocar,
ouviu a palavra “Cunha”
e sentiu o estômago a tentar sair do corpo
pelos sapatos,
com bagagem de mão.
Não discutiu.
Não explicou.
Não culpou o sistema, nem a humanidade, nem Mercúrio retrógrado.
Limitou-se a aceitar o destino
como quem sabe que a noite vai ser longa
e sem pão.
Passou a noite inteira a refazer tudo à mão.
Letra de aluno aplicado.
Direitinha.
Quase bonita.
A falhar só no cansaço,
num ligeiro tremor existencial
e numa parte respeitável da sanidade.
No dia seguinte, foi pessoalmente à Cunha.
Levou os papéis certos.
E uma caixa com doze bolas de Berlim.
Não por suborno.
Por sobrevivência emocional.
Juros de mora em açúcar.
O senhor Armando abriu a caixa.
Provou uma.
Mastigou em silêncio.
Silêncio longo.
Daqueles que fazem um homem rever escolhas.
E impostos.
Olhou para o Tó e disse:
— Ó rapaz… se continuares a errar assim, erra todos os meses.
O Tó riu.
Aliviado.
Cansado.
Um bocadinho mais magro por dentro,
como quem paga uma dívida
com o fígado e a autoestima.
Saiu dali com o IVA resolvido,
um desconto vitalício nos Jesuítas,
e a certeza de que, às vezes,
um erro bem remendado
é só o começo
de uma amizade quente…
ligeiramente recheada
e com IVA incluído.



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