O Sábado e a "Auditoria" da Farinha
Eu gosto do sábado.
É aquele dia em que o António deixa a gravata no escritório, acorda e pensa, com a convicção de quem vai finalmente pôr a vida em ordem:
lavar o Clio e ainda descansar o espírito.”
Acordo no meu canto. Olho para o relógio. 10h58.
Penso: “Perfeito. O balanço ainda está a zeros. Tenho o dia todo para investir em mim.”
Vou à cozinha. Bebo um café. Fico a olhar para a parede, perdido numa conta qualquer que não bate certo dentro da mente.
E, de repente… 13h42.
O tempo evaporou-se num erro de sistema que nenhum contabilista sabe explicar.
Não fiz nada, mas o sofá já reclama a posse do meu corpo.
É então que o telemóvel toca. É a Avó Amélia.
— Ó Tó, anda cá dar uma ajuda que o Ivan hoje não tem mãos para tudo e a Moura está cheia.
E lá vai o Tó.
O sábado, que era para ser de gestão de lazer, passa a ser de gestão de balcão.
Chego à Moura e a Avó, que já leva horas de pé, olha para a minha cara de quem acabou de sair da hibernação e larga logo a sentença:
— Então, Tó? Estiveste a aproveitar o sábado ou o sofá é que se aproveitou de ti?
Vá, mexe-te, que a vida não espera por quem fica a olhar para as musas.
E o António, que no escritório manda nos dossiês, ali limita-se a obedecer.
Na Moura, a auditoria da Avó é simples:
ou estás a ajudar, ou estás a atrapalhar.
O sábado tem esta magia estranha.
Passas a manhã a não fazer nada e ficas cansado.
Passas a tarde a ajudar a Avó e ficas exausto, mas com a alma lavada.
O pior é quando volto para casa à noite.
Dá aquela sensação de: “Pronto. Amanhã é que o Tó vai ser um homem de ação e lavar finalmente o carro.”
Mas não.
Amanhã é domingo.
fecha a caixa da padaria,
é só o sábado com um adicional de ansiedade.
da segunda-feira e do escritório do Vasconcelos.
No fim de contas, o sábado do Tó nunca é o que o António planeou.
Mas quase sempre…
é o que a vida decidiu.



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