Às vezes a vida começa num canto que ninguém quis...


O Tó, naqueles tempos em que ainda se chamava António para efeitos fiscais e outras tristezas oficiais, nunca escolheu a secretária 37.
Calhou-lhe.

Como quase tudo na vida dele: empregos, filas no 500, ou bolas de Berlim já escolhidas pelos outros.
Sempre o resto da festa.

Era a que sobrava.
Tipo o último pastel de nata na caixa depois de um aniversário infantil: um bocado amachucado, já mexido por dedos suspeitos… mas ainda com creme suficiente para justificar não ir diretamente para o lixo.

Ficava num canto escuro da sala.
Longe da janela, porque vistas bonitas são para quem tem futuro, e o António ainda estava a pagar prestações do passado.
Perto da impressora, que tossia mais do que o avô dele depois do segundo copo de jeropiga, ou o Zé do Prego depois de uma francesinha mal pensada.

— Ficas aqui, António — disseram-lhe.

Disseram com aquele tom neutro de quem não está a ser mau…
mas também não está minimamente preocupado com a tua felicidade, tipo: é isto ou o arquivo morto, escolhe rápido.

E ele ficou.
Porque discordar dá trabalho.
E ele já tinha gasto toda a energia só para chegar às nove sem pensar seriamente em fugir para a Pastelaria Moura, onde pelo menos o creme compensava o cansaço.

A secretária tinha uma gaveta que emperrava sempre.
No primeiro dia ainda lhe pedia licença antes de lhe dar uma joelhada,
como um cavalheiro antigo.
No terceiro já murmurava “abre-te lá, vá”.
No quinto chamava-lhe “cabra velha”.

A gaveta respondia com um clique seco, tipo:
“Vai pastar. Amanhã falamos.”

Relação estável.
Cada um a fazer o mínimo.
Como um casamento portuense depois dos vinte anos.

A cadeira rangia.
Mas não rangia pouco.
Rangia com opinião formada, tipo vizinha da Fontinha à janela.

Mexias-te?

Creeeec.
“Sossega-te, pá.”

Ficavas nervoso?

CRÉÉÉÉC.
“Isso passa com um café.”

Pensavas na vida?

CRRRRRÉÉÉÉC.
“Não te entusiasmes. Isto é um open space, não é terapia.”

Basicamente dizia:
“Sonhar é bonito, mas foca-te aí no Excel.”

Chegou cedo no primeiro dia.
Chega sempre cedo quem não sabe bem onde se há-de meter,
tipo chegar à paragem do 500 e fingir que não reparas que
a fila já vai até à esquina.

O escritório cheirava a desinfetante industrial…
e a sonhos adiados.
Com um leve toque de café requentado da máquina
que ninguém limpa desde 2014.

Sentou-se.
Endireitou as folhas como se fosse exame nacional.
Alinhou a caneta com a régua.

Não por ser organizado.
Por pânico puro de parecer desleixado e acabar
como o estagiário que “era porreiro, mas não se adaptou”.

Às nove em ponto entrou a malta.
Casacos atirados.
Teclas a bater como chuva miudinha.
Bom-dias lançados ao ar, sem dono.

Ninguém olhou para ele.

— Ficaste na 37?
— Boa sorte, pá.

Riram-se.
Sem maldade.
Mas daquele riso de quem vê alguém entrar num
elevador avariado e pensa: ainda bem que não sou eu.
O António sorriu também.
Ele sorria sempre quando o cérebro gritava:
“Finge que está tudo bem. Eles estão demasiado
ocupados com os próprios dramas.”

Passou a manhã inteira sem ninguém lhe pedir nada.
Nada.

Estranho.
Normalmente pediam-lhe coisas como:

“Ó António, sabes onde está o relatório de 2017?”

ou

“Podes ver a impressora? Está a morrer outra vez.”

Mas não.
Nada.

Ficou quieto.
Quieto é a especialidade dos invisíveis.

Às 11h17, porque as coisas importantes nunca acontecem a horas certas, aparece um colega, pasta aberta, cara de quem acabou de ver a conta do gás.

— Ó António… sabes onde está isto?

Ele soube.
Claro que soube.
Nem perguntou o quê.

Apontou só.
Modo GPS humano.
Sem recalcular rota.

O colega saiu aliviado.
O António ficou igual.

Mas por dentro fez-se um clic.
Achievement desbloqueado:

“Útil, mas discreto”
(+5 pontos de sobrevivência emocional)

Ao almoço comeu ali mesmo.
Sandes embrulhada em papel de alumínio com ar de quem já viveu demais.
Migalhas no teclado.

Limpou tudo com um lenço, como se estivesse num CSI corporativo.
E se alguém usasse o computador depois?

(Spoiler: ninguém usava.)

À tarde, a impressora engasgou-se outra vez.
Gritos.
Papéis presos.
Drama médio, tipo fila no café sem bolas de Berlim.

O António levantou-se.
Sem pressa.

Abriu a tampa.
Desencravou o papel com cuidado, como quem tira uma espinha de cavala.
Fechou.

— Obrigado, pá.

Ele assentiu.
Sentou-se.

A cadeira rangeu, satisfeita.

Créc.
“Assim mesmo. Não faças ondas.”

Quando saiu, ao fim do dia, olhou para trás.

A secretária 37 ficou lá.
Quietinha.
À espera da próxima joelhada.

Pensou que amanhã ia ser igual.

E ficou um bocadinho triste.

Mas não muito.

Porque, sem dar por isso,
já tinha aprendido a arte suprema do escritório:

ficar,
resolver,
e não dar muito nas vistas.

E assim começou o Tó.

Antes do avental.
Antes do forno.

Quando ainda se chamava António…
e a vida rangia,
mas aguentava.

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