A gentileza anda cansada.
O Tó acha que a gentileza anda cansada. Não cansada de trabalhar. Cansada de existir. Arrasta os pés, suspira muito, e quando aparece parece que está a fazer um favor. Como quem diz: “olha, ainda vim, mas não abuses”.
Ele nota isso nas filas. Toda a gente colada ao telemóvel, a fingir que está ocupadíssima a resolver coisas importantes, quando, na verdade, está só a atualizar o nada. Ninguém olha para ninguém. Toda a gente com pressa de chegar a sítio nenhum. E quando alguém pede licença, pede como quem pede desculpa por estar vivo. Quase falta o “desculpe lá respirar”.
Ele tenta não alinhar nisso. Não por virtude. Longe disso. É mais por hábito. Daqueles que vêm da avó, sem manual, sem TED Talk, sem workshop de empatia às nove da manhã com coffee break. Vêm e ficam. Como nódoa de café numa toalha branca: não sai, mesmo esfregando com fé.
Para ele, gentileza não é abrir a porta com ar de anúncio de banco nem fazer discursos sobre humanidade que dão vontade de fugir. Isso cheira-lhe a teatro comunitário. Gentileza é coisa pequena e muda. É segurar a porta sem avisar. É ouvir até ao fim, mesmo quando já percebeu tudo ao segundo cinco e o resto é só repetição com mais gestos. É não buzinar porque o outro demorou meio segundo a arrancar, que às vezes está a pensar na vida. Ou simplesmente a meter a primeira.
Claro que falha. Falha muitas vezes. Há dias em que lhe apetece mandar o mundo dar uma volta completa ao quarteirão e ainda pagar estacionamento. Mas mesmo nesses dias, se alguém lhe pede ajuda, ele para. Por fora para. Por dentro resmunga. Mas para.
Ele não acredita que a gentileza mude o mundo. Isso são frases bonitas para quadros em consultórios onde ninguém sabe bem porque está ali. O que a gentileza faz é mais modesto e mais útil: impede que o mundo fique ainda pior do que já está. E isso, convenhamos, já dá trabalho suficiente.
Um gesto pequeno não resolve a vida de ninguém. Não paga contas, não cura nada, não endireita o país. Mas pode tornar o dia suportável. E há dias em que isso já é um milagre respeitável, sem precisar de anjos, santos ou promessas.
Ele aprendeu que ser gentil é escolher não passar a dor adiante. É dizer “força” sem abrir a boca. É ficar quando dava muito mais jeito ir embora e fingir que não viu.
No fim do dia, o Tó não se acha particularmente bondoso. Acha-se só atento. E acha que, se cada um fosse um bocadinho mais gentil do que o estritamente necessário, isto talvez não ficasse melhor.
Mas ficava mais habitável.
E já não é pouco.



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