A dignidade do pouco


O Tó não nasceu com muito.
Nasceu com o suficiente.

Casa pequena.
Conta feita ao cêntimo.
Sapatos que duravam até começarem a abrir como quem diz “já chega”.

E ele ia colando.

Não com cola.
Com teimosia.

Aprendeu cedo que esperar não é perder tempo.
É ciência.

Porque nem tudo podia ser agora.
Às vezes era para o mês que vem.
Outras vezes era “logo se vê”.

E no meio desse pouco aprendeu coisas que não vinham nos livros.

Aprendeu a esperar.
Não a espera nervosa de quem quer tudo já.
Mas a espera de quem sabe que o tempo também trabalha.

Aprendeu a ouvir.
A escutar a dor dos outros antes de admitir a sua, guardando as dúvidas para as noites em que o tecto era o único que o ouvia pensar.

Aprendeu que nada cresce à força.
Nem plantas.
Nem pessoas.
Nem massa levedada.

Quem já viu um bolo abater por impaciência percebe a lição.
A vida é igual.
Se mexer demais, estraga.

Às vezes sai-lhe um pensamento que parece filosofia, como quem não quer ensinar nada:

— Quem começa no pouco aprende a não se perder no muito.

E depois encolhe os ombros.
Como se fosse conversa de café.

Mas não é.

As mãos que já estiveram vazias seguram de forma diferente: Não apertam por medo,
nem exibem por vaidade.

Seguram com cuidado.

Porque sabem o que custa deixar cair.

E os pés que caminharam devagar conhecem melhor o chão.
Sabem onde ele é firme.
Sabem onde ele cede.
Sabem onde é melhor não fazer figura de esperto.

Há uma força em quem já viveu com pouco.

Mas não é força de peito inchado.
Não é ruído.
Não é frase motivacional colada no frigorífico.

É força tranquila.

Daquelas que abre a porta às seis e meia, mesmo quando a alma está mais encharcada do que a calçada em dia de chuva.

Daquelas que fica.

É raiz.

O Tó olha para as pequenas conquistas como quem olha para um mapa antigo.

Nada de medalhas.
Nada de discursos.
Só marcas do caminho.

Cada vitória tem pó nas solas.
Tem memória.
Tem noites de dúvida a olhar para o tecto.
Tem dias de trabalho sem aplauso.

Ele não inveja quem sobe rápido.

Até pode admirar.
Mas invejar não.

Porque quem cresce depressa demais às vezes esquece onde começou.
E quando o vento muda, abana.

Quem cresce devagar cresce primeiro interiormente.

E isso ninguém vê.

Mas aguenta muito mais.

O Tó não nasceu com muito.

Nasceu com o suficiente.

E talvez seja por isso que, agora que tem um pouco mais, não anda a provar nada a ninguém.

Divide.
Serve.
Fica.

Porque quem já esteve vazio aprende uma coisa que não se ensina:

O importante não é ter muito.

É não deixar ninguém sentir-se pouco.

Ele não diz isto assim com frases bonitas.

Sai-lhe só um:

— É o que é.

Mas quem está atento percebe.

E isso…
isso não se perde.


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