Quem fica a resolver em silêncio acaba, sem querer, a ser o milagre de alguém.
A empresa decidiu modernizar-se.
“Modernizar” é palavra bonita. Cheira a futuro, a progresso, a computadores que não fazem barulho. Na prática, significou caixas de cartão, disquetes que pareciam bolachas finas e um manual de contabilidade mais grosso que a Bíblia da mesinha da avó e a da avó tinha apêndice.
Aquilo não era um manual. Era um objeto contundente com índice remissivo.
Ninguém percebeu nada.
O chefe falava em “interface intuitiva” com a mesma convicção com que se fala em bacalhau à Brás. Mas o programa abria e parecia que a NASA tinha decidido fazer IRS. Janelas a piscar, códigos em inglês técnico e números que olhavam para a pessoa como quem diz: “Experimenta lá, campeão.”
O Tó levou o manual para casa.
Levou outro fim-de-semana.
Levou mais um.
Estudou aquilo como quem decora um mapa antes de atravessar a Arrábida com o ponteiro da gasolina já a piscar e a rezar para que o carro colabore. Sublinhava, fazia setas, escrevia notas na margem, metia post-its como se estivesse a planear um golpe de estado.
A mãe achava que ele estava a preparar-se para juiz conselheiro.
Ele estava só a tentar não ser o mais perdido da sala.
À segunda-feira já sabia mexer.
À terça, era o único.
Quando o programa bloqueava, ouvia-se pelo corredor:
— Ó Santo António, vem cá salvar-me!
O nome pegou com uma velocidade que nem o software tinha.
“Santo António dos Números.”
Sem auréola. Só olheiras e café a mais.
O Tó aparecia sempre com uma bola de Berlim na mão. Dizia que era taxa de milagre. Às vezes acrescentava que Deus não gosta de contabilidade feita de estômago vazio. A malta ria. Ele também, que rir saía mais barato do que admitir que estava nervoso.
Carregava em três teclas.
Aquilo voltava à vida.
A pessoa suspirava como se tivesse visto Nossa Senhora materializar-se na impressora matricial, entre um relatório e uma folha encravada.
O Tó encolhia os ombros. Deixava a bola de Berlim em cima da secretária alheia como quem deixa uma hóstia alternativa e voltava para o seu canto. Nunca fez espetáculo. Nunca explicou o truque. Ficava até aquilo funcionar, mesmo quando já não era problema dele.
Havia sempre qualquer coisa nele que preferia resolver do que aparecer. Se pudesse escolher entre aplauso e paz, escolhia silêncio e mais um café.
Anos depois, já longe daquela empresa e com menos cabelo e mais mundo, lembrava-se desses dias com um sorriso torto.
Não por ter sido santo.
Ele mal sabia escolher gravata.
Mas porque ali aprendeu uma coisa que lhe ficou agarrada à pele como cheiro a papel quente:
Ajudar em silêncio cansa.
E às vezes dá azia.
Mas sustenta.
E talvez seja isso que ele sempre fez na vida. Ficar até funcionar. Carregar nas teclas certas quando os outros já tinham fechado o programa e a esperança. Deixar a bola de Berlim na mesa e sair de fininho, antes que alguém começasse a bater palmas.
Não pediu santidade nenhuma.
Calhou-lhe.
E ele, como sempre, ficou.

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