A São

O Tó nunca contou isto a ninguém.

Nem a si próprio, durante muito tempo.
Porque dito em voz alta parecia coisa de adolescente com 40 anos.
E o Tó já tinha crises existenciais suficientes para alimentar.

Chamava-se São.
Nome curto.
Postura firme.
Quarto andar.

Olhos verdes daqueles que não fazem promessas…
mas depois aparecem na tua cabeça às três da manhã sem autorização.

Sotaque transmontano.
Daqueles que transforma uma simples frase numa lareira acesa em pleno fevereiro.

Tratava das folhas de salários
com a concentração de quem sabe
que um número errado é um jantar em silêncio noutra casa qualquer.

O Tó respeitou logo.
E apaixonou-se logo ali também, claro.

Porque o Tó apaixona-se por competência.
Há quem goste de abdómens definidos.
O Tó gosta de Excel bem organizado.
Cada um com o seu fetiche.

Inventava desculpas para subir.
Todos os dias havia uma.
Aquilo parecia romance de escritório
com orçamento reduzido.

— Era só confirmar um valor…
— Era só tirar uma dúvida…
— Era só um minutinho…

Nunca era um minutinho.
Vinte minutos depois ainda lá estava,
a falar de coisas que não interessavam nada só para poder ouvir o “pois” dela.

Ele não levava flores.
Nem chocolates.
Levava perguntas desnecessárias.
Era o que tinha.

Ela fingia que não percebia.
Ele fingia que não estava perdido.
Era um equilíbrio muito português.

Até ao dia em que, na cantina,
ela pousou o tabuleiro à frente dele
com a serenidade de quem fecha um balanço anual.

— António…
— Se queres namorar comigo, diz.
— Mas pára de inventar relatórios só para me ver.

O Tó ficou vermelho.
Da cor de quem percebe que foi apanhado em flagrante romântico.

Disse que sim.
Sem discurso.
Sem metáforas.
Sem ironia.

Coisa rara.

Namoraram dois anos.
Tranquilos.
Almoços divididos ao meio.
Risadas discretas.
Mensagens às dez da noite só a dizer “chegaste bem?”

Discussões sérias.
Tipo:
quem escolhe o filme.
E se domingo é dia de sofá ou de passeio.

Acabou quando ela foi para Lisboa.
Transferência.
Daquelas que não perguntam “queres vir?”
Perguntam só “tens caixas?”

O Tó não fez drama.
Nunca faz.
Disse “boa sorte”
como quem entrega um livro preferido
e finge que já o leu todo.

Guardou um papel.
Ele guarda sempre o que cabe numa gaveta.

Nele estava escrito:
“Gosto de ti, mesmo quando és ridículo.”

Ainda hoje, quando encontra esse papel perdido,
o Tó sorri devagar.
Ri-se um bocadinho.
E dobra-o outra vez.

Porque ele sabe que o amor não precisa de ser épico para ter sido verdadeiro.

E no Dia dos Namorados,
há quem publique jantares caros
e há quem sorria para um papel dobrado.

Às vezes…
isso chega



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